Dúvidas & Angústia.

Homem Paradoxal – Dostoiévski

Janeiro 28, 2008 · 2 Comentários

Desde que falamos de guerra, é preciso que lhes conte algumas opiniões de um dos meus amigos que é homem de paradoxos. É um dos menos conhecidos e possui caráter estranho: é sonhador. Neste momento só quero recordar uma conversa que tive com ele já fazem alguns anos. Defendia a guerra, em geral, talvez unicamente por amor ao paradoxo.Nota-se que é perfeito burguês, o homem mais pacífico do mundo, o mais indiferente aos ódios internacionais ou, simplesmente, entre os petersburguenses.

É exprimir-se como selvagem – disse entre outras – afirmar que a guerra é praga para a humanidade. Muito ao contrário: é o que lhe pode ser mais útil. Há somente uma espécie de guerra verdadeiramente deplorável: a guerra civil. Decompõe o Estado, dura sempre muito tempo e embrutece o povo por muitos séculos. Mas a guerra internacional é excelente, de qualquer ponto de vista. É indispensável.

 

- Que vê você de indispensável em se lançarem dois povos um contra o outro para se matarem reciprocamente?

- Tudo, absolutamente tudo! Em primeiro lugar, não é verdade que os combatentes se lancem uns contra os outros para se matarem reciprocamente, ou pelo menos não é essa a sua primeira intenção. Antes de tudo fazem o sacrifício da sua própria vida; é isso que se tem de considerar antes de tudo; e nada tão formoso como dar a própria vida para defender irmãos e a pátria, ou, simplesmente, os interesses dessa pátria. A Humanidade não pode viver sem idéias generosas e é por isso que ama a guerra.

- Então você acredita que a Humanidade gosta de guerra?

 

– Evidentemente. Quem se desespera, quem se lamenta durante a guerra? Ninguém. Cada qual se torna mais corajoso, sente o espírito resoluto; sacode-se a apatia comum; não se conhece o aborrecimento; este é bom em tempo de paz. Quando a guerra termina, gosta-se de recordá-la, se acabou com a derrota do inimigo. Não acreditem na sinceridade dos que, uma vez declarada a guerra, dizem uns aos outros a gemer: ‘‘Que desgraça!’’ Falam pelo respeito humano. Na realidade, a alegria reina em todas as almas, mas não se atrevem a confessá-lo. Têm medo que os julguem retrógrados. Ninguém se arrisca a engrandecer, a exaltar a guerra.

- Mas você me fala das idéias generosas da Humanidade? Não vê idéias generosas fora da guerra? Parece-me que é possível adquiri-las em muito maior quantidade em tempo de paz.

 

– De modo algum. A generosidade desaparece das almas nos longos períodos de paz. Somente se observa cinismo, indiferença e aborrecimento. Pode dizer-se que a paz prolongada torna os homens ferozes. O que predomina nessas épocas é sempre o pior que há no homem; por exemplo, a riqueza, o capital. Depois de uma guerra ainda se dá valor ao desinteresse, ao amor pela Humanidade; mas se a paz se prolonga, estes famosos sentimentos desaparecem. Os ricos, os açambarcadores são os senhores. Somente se encontra hipocrisia da honra, da lealdade, do espírito de sacrifício, virtudes que os próprios cínicos se vêem forçados a respeitar, pelo menos na aparência. A paz prolongada produz a frouxidão, a baixeza de objetivos, a corrupção. Embota todos os sentimentos. Nas épocas de paz os gozos se tornam mais grosseiros. Pensa-se somente na satisfação da carne. A voluptuosidade produz a lubricidade, a ferocidade. E não há negar que depois de paz demasiado prolongada, a riqueza brutal a tudo reprime.

- Mas vejamos: podem desenvolver-se durante uma guerra, as ciências e as artes? E estas são, parece-me, manifestações de idéias generosas.

É aí que os faço parar. A ciência e a arte florescem principalmente nos primeiros tempos que se seguem a uma guerra. A guerra rejuvenesce, refresca tudo, dá forças às idéias. A arte decai sempre grandemente depois de paz prolongada. Se não tivesse havido muitas guerras, que teria sido da arte? As mais belas idéias de arte foram sempre inspiradas por idéias de luta. Leia-se Horário de Corneille; veja-se o Apolo de Belvedere derrubando o monstro.

- E as nossas senhoras? E o cristianismo?

- O próprio cristianismo admite a guerra. Profetiza que a espada jamais desaparecerá do mundo! Sem dúvida, nega a guerra do ponto de vista sublime ao exigir o amor fraterno. Eu seria o primeiro a ficar satisfeito se do ferro das espadas se forjassem arados. Mas impõem-se a pergunta: quando será possível? O estado atual do mundo é pior do que qualquer guerra; a riqueza, a preocupação do gozo dão origem ao tédio, que causa a escravidão. Para manter os escravos em condição inferior é preciso negar-lhes qualquer instrução, eis que esta provocaria o desejo de liberdade. Juntarei, além disso, que a paz proclamada favorece a covardia e a falta de vergonha. O homem é, por natureza, covarde e nada honesto. E que será da ciência se os sábios se sentirem dominados pela inveja de todos quantos os rodeiam?

A inveja é paixão baixa e ignóbil, mas pode invadir até a alma do sábio. E compare-se a vitória da riqueza com o que pode proporcionar qualquer descoberta científica, por exemplo, a do planeta Netuno. Restarão muitos verdadeiros sábios, trabalhadores desinteressados nessas condições? Sentir-se-ão dominados pelas veleidades da gloria, o charlatanismo surgirá na ciência, e antes de tudo, o utilitarismo, porque cada um deles sentirá a sede das riquezas. O mesmo acontecerá na arte: ter-se-á somente em vista o efeito. Atingir-se-á o apuro extremo, que é tão-só o exagero da grosseira. Por isso a guerra é necessária à humanidade. A guerra desenvolve o espírito de fraternidade e une os povos!

- Como quer que una os povos?

 

- Obrigando-os a se estimarem mutuamente. A fraternidade nasce nos campos de batalha. A guerra incita menos à maldade do que a paz. Veja-se até aonde vai a perfídia dos diplomatas em tempo de paz! As questões desleais e dissimuladas como as com que nos ameaçavam a Europa em 1836, causam muito mais dano do que a luta franca. Odiávamos os franceses e ingleses durante a guerra da Criméia? De modo algum. Foi quando travamos boas relações. Preocupava-nos a opinião que pudessem ter de nosso valor; obsequiávamos os que caíam prisioneiros; nossos oficiais e soldados encontravam-se nos postos avançados e pouco faltava para que os inimigos se abraçassem; bebiam juntos à saúde, confraternizavam. Ficávamos encantados por ler tudo isso nos jornais, o que não impedia que a Rússia batesse com todo vigor. O espírito cavalheiresco desenvolveu-se extraordinariamente. E não nos venham falar das pernas materiais causadas pela guerra, todos sabem que todas as forças renascem depois da guerra. O poderio econômico do país torna-se dez vezes maior; é como se uma chuva de tempestade tivesse fertilizado, refrescando-a, a terra ressequida. O público apressa-se a vir em socorro das vítimas de guerra, enquanto, em tempos de paz, províncias inteiras podem morrer de fome antes de termos arranhado o fundo dos bolsos para dar-lhes três rublos.

- Mas o povo, principalmente, não sofre durante a guerra? Não é ele que suporta todos os sofrimentos, quando as classes superiores de nada se dão conta?

- É só temporariamente. Ganha muito mais do que perde. É para o povo que a guerra tem melhores conseqüências. A guerra a todos iguala durante o combate, unindo o criado ao amo nessa manifestação suprema da dignidade humana: o sacrifício da vida pela obra comum, por todos, pela pátria. Você crê que a massa mais humilde dos mujiques não sente a necessidade de manifestar de modo ativo sentimentos generosos? Como poderia provar durante a paz a magnanimidade, o desejo da dignidade moral? Se um homem do povo realiza uma bela ação em tempo de paz, ou zombamos ou desconfiamos, ou então relevamos admiração, tão exagerada que os elogios parecem insultos. Parece tudo tão extraordinário! Durante a guerra, todos os heroísmos são iguais. Um gentil-homem proprietário e um camponês, quando lutavam em 1812, estavam mais perto um do outro do que no povoado em que moravam. A guerra permite à massa estimar-se a si própria; é por isso que o povo a ama. Compõe canções guerreiras depois do combate e mais tarde escuta religiosamente as descrições das batalhas.

A guerra em nossa época é necessária; sem ela, o mundo cairia na indolência…

Deixei de discutir. Não discuto com sonhadores. Mas é aqui que começam a preocupar-se com problemas que desde há muito, pareciam resolvidos. Já significa alguma coisa. E o mais curioso é que tal se dá por toda parte.

  • Fiódor M. Dostoiévski em: Diário de um Escritor

Introdução de Otto Maria Carpeaux; Tradução de E. Jacy Monteiro.

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