Dúvidas & Angústia.

É

Janeiro 29, 2008 · 1 Comentário

Continuando a idéia do post anterior, venho por meio deste disseminar informações sobre outro autor que também falava de arte, de criação, mas de uma maneira diferente, no entanto, encontrei alguns pontos em comum.

No post anterior:

‘‘A ciência e a arte florescem principalmente nos primeiros tempos que se seguem a uma guerra. A guerra rejuvenesce, refresca tudo, dá forças às idéias. A arte decai sempre grandemente depois de paz prolongada. Se não tivesse havido muitas guerras, que teria sido da arte? As mais belas idéias de arte foram sempre inspiradas por idéias de luta.’’

Fica claro que Dostoiévski levanta a idéia de ociosidade como ligada à natureza do homem. E a arte ou até mesmo o comportamento mais ‘‘humano’’ como transgressores ou contrários à natureza citada. Alguns lêem como um olhar doente de Dostoiévski, eu sou suspeita para falar, pois acho que Dostoiévski conhecia mais da mente humana do que muitos que fizeram levantamentos e classificaram cada atitude diferente como algo patológico.

Eu lembro que conversava com um rapaz indiano (muito querido, por sinal!): o Paurav. Conversávamos sobre cultura e outros assuntos que merecem desperdício de tempo. Mesmo com tantas diferenças, nós concordávamos com a idéia de que algumas personalidades que admiramos não passam de ‘‘produtos do seu tempo’’. Como assim? Bom, eles, mesmo sem querer ou ter consciência, foram completamente inseridos num contexto e influenciados por ele de tal maneira que retrataram isso em suas obras. Acho que é só um desejo meu essa história de extemporaneidade e quando conseguimos ligar cada ato, isso faz com que tudo fique tão simples, tão banal, que parece que a arte não é mais arte. Mas o que é arte? Não sei encontrar uma definição agora, mas adianto que é um dos grandes valores da humanidade.

Voltando…

A semelhança que enxergo entre Dostoiévski e Rousseau será apresentada:

Jean-Jacques Rousseau em seu ‘‘Discurso sobre as ciências e as artes’’ também deixa claro que a arte é transgressão da natureza humana ou afirmação dos vícios, tanto geradora como produto.

Excertos contidos na obra: (Grifados por mim)

‘‘Antes da arte modelar as nossas maneiras e ensinar as nossas paixões a falar uma linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos, porém naturais; e a diferença dos procedimentos anunciava, ao primeiro golpe de vista, a dos caracteres. A natureza humana, no fundo, não era melhor; mas, os homens encontravam sua segurança na facilidade de se penetrarem reciprocamente; e essa vantagem, cujo valor não sentimos, lhes evitava muitos vícios.’’

O homem para Rousseau era preguiçoso, talvez fosse mais instintivo e não se importasse tanto com os outros, aliás, com as opiniões alheias. Mas ele não era ‘‘mau’’. E nem tinha disposição para o mal. A maldade estava contida a partir da afirmação dos vícios, de acordo com J.J. Rousseau. O desejo de ser melhor, de se destacar, torna o homem mesquinho e capaz de fazer tudo para obter sucesso.

Mais alguns trechos:

‘‘A astronomia nasceu da superstição; a eloqüência, da ambição, do ódio, da adulação, da mentira; a geometria, da avareza; a física, de uma vã curiosidade; todas, e a própria moral, do orgulho humano.’’

‘‘Se as nossas ciências são vãs nos objetivos que se propõem, são ainda mais perigosas pelos efeitos que produzem. Nascidas na ociosidade, por sua vez a nutrem; e a perda irreparável de tempo é o primeiro prejuízo que necessariamente causam à sociedade. Em política, como em moral, é um grande mal não fazer o bem; e todo cidadão inútil pode ser olhado como homem pernicioso.’’

Se foram perdidas muitas obras no tempo da Inquisição, no tempo do Index Librorum Prohibitorum, talvez mais obras foram perdidas devido ao orgulho do homem. O desejo, o desejo não de ser compreendido, mas de ser ‘‘alienado’’. Vendem os corpos e as almas, esses putos. Vender a alma pro Diabo é pouco para esses doentes de câncer no Ego. Eles se vendem para qualquer um que pague. Alguns grandes caras que admiro são insanos, algo fora do comum, eles pagariam com sangue para fazer o que fazem, mas não se venderiam para serem aplaudidos. Aliás, alguns nem gostam de serem entrevistados ou coisa parecida. Pode até não parecer, mas existem grandes espíritos no meio dos espíritos-de-porco. Acho que é por esse motivo que gosto do underground (alguns sabem do que estou falando, risos).

‘‘O abuso do tempo é um grande mal. Outros males ainda piores seguem ainda as letras e as artes. Assim é o luxo, do mesmo modo que elas nascido da ociosidade e da vaidade dos homens. O luxo raramente existe sem as ciências e as artes, e elas jamais sem ele.’’

Acho que já falei isso, a ciência também, de certa forma, é comprada. Por isso que vez ou outra surgem rumores de que foram cometidos crimes por causa de algum progresso da ciência, mas o que me causa raiva é um doente mental ir a um veículo público (por exemplo) e dizer que isso é desumano. (Des)humano é dialogar ou cogitar o esclarecimento de um infeliz assim. Finge que nada acontece enquanto ele assiste a novela das oito. Finge, pois não consegue admitir que é um insignificante porque quer, prefere não ver que a mídia (mais um motivo para odiar) só informa a anos-luz do ocorrido. É um mais bastardo que o outro, defendem sobre o que não sabem.

‘‘Todo artista quer ser aplaudido. Os elogios dos seus contemporâneos constituem a parte mais preciosa de suas recompensas. Que fará, pois, para os obter, se tem a desgraça de ter nascido no seio de um povo e nos tempos em que os sábios em moda puseram uma juventude frívola em estado de dar o tom; em que os homens sacrificaram seu gosto aos tiranos de sua liberdade; em que, não ousando um dos sexos aprovar senão o que é proporcional à pusilanimidade do outro, se deixa que se percam obras-primas de poesia dramática e se joguem fora prodígios de harmonia? Que fará ele, senhores? Rebaixará seu gênio ao nível do seu século e preferirá compor obras comuns, que se admirem durante a sua vida, a maravilhas que seriam admiradas muito tempo depois de sua morte.’’

Fica a questão: será que o que estamos fazendo vale a pena? Ser mais um em meio a tanta gente que pensa apenas em sobreviver. Nenhum dinheiro do mundo compra a sede pelo saber. Quando deixamos de ser ignorantes, passamos a carregar o peso da liberdade. Responsabilidade é o eufemismo para a angústia que se sente quando você descobre que a vida vai ter o mínimo de sentido/coerência se você começar a fazer o que quer não porque outros falaram, mas porque você descobriu real valor nisso. Concretize ou seja o que sempre foi, pois para afirmar temos que negar. Apresento-lhes o primeiro (indigno de suas leituras, talvez) esboço do movimento da Dialética.

_____________________________________________

Outro bom texto no blog O lado B.

 

Categorias: Filosofia
Etiquetado: , , , , , , , , , , , , , , , , ,

1 resposta Até agora ↓

Deixe um comentário