Neste ano ‘‘comemorei’’ o carnaval. Vitória! Consegui sair de casa e passar alguns dias na casa de praia. Levei alguns livros, mas não consegui ler muito. No entanto, o que importa é a ‘‘reflexão’’ que fazemos quando temos experiências diferentes, conhecemos outras pessoas, etc. Engraçado, tudo o que falo sobre mim fica meio chato de escrever e ler, por isso passo logo para o próximo parágrafo.
Gadamer na obra A arte como jogo, símbolo e festa expõe alguns aspectos interessantes acerca de eventos, de festas, enfim, qualquer reunião social. A festa por representar a coletividade e ‘‘impedir o isolamento’’, torna fundamental a inter-relação e troca de ‘‘subjetividades’’ (se me permitem a colocação). Então há, a partir disso, uma intenção ‘‘a priori’’, mas também existe uma lacuna para o sentido ser efetivado, cabe às pessoas que participam da festa realizar o sentido. Ou seja, é impensável um símbolo sem a participação dos interlocutores, a festa exige uma reciprocidade. Não há como idealizar e tomar o resultado da idealização como o ‘‘produto’’ da festa. Ela (a festa) precisa acontecer para ser. [Repito as palavras do meu ex-professor Custódio Almeida] A festa é exatamente como a vida (pelo menos no que diz respeito ao que foi exposto até agora), não temos garantia de que o que foi aprendido até agora nas nossas vidas seja válido em algum momento, mas certamente o que foi ‘‘apreendido’’ vai servir noutro tempo.
O interessante é que há uma espécie de troca de valores, enquanto tudo que eu pensava que sabia estava ali guardado para ser usado, o que aconteceu foi o contrário: eu parei para escutar, escutar o senso comum. Quando me dei conta, já estava ouvindo as palavras do povo, da comunidade. Sim, os que vivem sem ao menos cogitar a possibilidade do avanço de suas mentes. É como se eu sempre parasse para pensar e eles (apenas em alguns dias) tivessem me ensinado a não parar e viver. Destruir a existência. Viver. Viver não é morrer? Preservar a vida é aproveitar (aniquilando) tudo o que a superficialidade oferece? Como se tivesse um pouco mais que isso. Será que há? Eu pensei: qual é o limite? Qual é o limite de cada um? A minha superação de limites é relativa ao ato de ‘‘esquecer’’. Esquecer tudo o que aprendi e me jogar ao ‘‘comum’’. Esquecer tudo o que sei, todas as minhas dúvidas e brincar de ser feliz.
Quem sou eu para julgar ‘‘o que aparece’’? Negar os costumes, os pensamentos encravados na pele daqueles que incorporam a cultura de um povo? Jamais! Mesmo porque, se eu tivesse condições, eu sairia por aí filosofando. Trocando idéias, amadurecendo o intelecto e entendendo melhor os níveis de consciência. Discutir. Provoc(a)ções a toda hora.
Existe um ‘‘quê’’ de ingenuidade no carnaval, mas existe também um ‘‘quê’’ de inteligência. Alteridade. Velar e Desvelar: a fórmula. Velar a verdade que aparecerá depois do feriado (o abismo, seja de ordem social, econômica, política ou cultural) e desvelar o que as pessoas são, livres de todas as técnicas presentes no dia-a-dia.
A cidade existe e nós sabemos disso:
‘‘A cidade se apresenta
centro das ambições
para mendigos ou ricos
e outras armações
Coletivos, automóveis,
motos e mêtros
Trabalhadores, patrões,
policiais, camêlosA cidade não pára
a cidade só cresce
O de cima sobe
e o de baixo desce
A cidade não pára
a cidade só cresce
O de cima sobe
e o de baixo desce’’
[A cidade, Chico Science]
Mas, por uns dias, esquecemos da cidade.
‘‘No carnaval, as diferenças de raça, classe, sexo e indivíduo são apagadas. Essa festa confunde tudo. Mistura e torna iguais tanto os ricos como os pobres, os brancos e os pretos, os empregados e os patrões, a senhora e sua empregada, desmanchando preconceitos e distâncias. Cria certo tipo de miragem onde triunfam o sexo e a música, e o mundo fica de ponta cabeça.’’
‘‘Nos quatro casos, o corpo representa importante elemento na criação da obra de arte. Apreciamos o carnaval, principalmente, como festa do corpo. Achamos que era pura superfície. Nenhum folião está interessado em compreender a sua possível “profundidade” ou “fundamento”. Os cantos e ritmos são cantados e ritmados enquanto duram, e a música se faz música apenas por causa da alegria de sua beleza e por causa de si mesma. Não quero dizer com isso que cientistas sociais, antropólogos, psicólogos, teólogos e filósofos não possam interpretar o carnaval segundo as diretrizes e interesses de suas ciências ou métodos. Mas suas interpretações do carnaval não são o carnaval. O carnaval existe sem essas interpretações. Na verdade, nem precisa delas. Suas sínteses não têm poder algum para transformar a alegria do carnaval em qualquer outra coisa. Não são relevantes para os que brincam o carnaval.’’ Jaci Maraschin
Lembrei também de Hume em: ‘‘Sê filósofo, mas, em meio a tua filosofia, não te esqueças de ser homem’’. Ou seja, o filósofo deve ser alguém moderado; o problema é que isso não é muito levado em consideração, visto que o ‘‘academicismo’’ reina. As pessoas são extremamente ligadas às letras, à arte de bem escrever, aos dados comprovados cientificamente. Não digo que isso é errado, mas existe uma carência de teses que pretendam abarcar mais que isso. Que retornem à idéia de filosofia com o sentido de busca por verdades universais. Certamente alguns cientistas vão atacar, falar mal, expressar o seu repúdio a isto, mas sabemos que a cada dia as coisas estão ficando mais ‘‘determinadas’’, ‘‘delimitadas’’ e menos comprometidas com a inter-conexão entre as coisas. As pessoas não estão preocupadas com o social, querem saber de ganhar um ‘‘prêmio’’ por algo nunca imaginado(?) antes em suas áreas específicas. Não estão se importando para quem dedica à vida toda por algo realmente útil. Basta olhar um jornal, saber o que realiza-se nos patrimônios que deveriam ser públicos. Privatizam a alma de um povo. Cadê a Amazônia? A história é uma repetição de erros. Tudo tão deturpado. Até hoje chamam de índios os brasileiros que foram confundidos com habitantes das Índias.
Sabemos que a imaginação é necessária, mas não devemos esquecer de associar as idéias acerca do que existe. Gadamer também defende a idéia de que a vivência é dividida em imediata, a que eu vivo no presente e a formada por memórias, a que eu recordo, que foi especial para mim em algum momento, que eu revisito. Nós precisamos aprender a usar a história como sabedoria, isso eu estendo para a política, para a ética, enfim, para outras áreas. É ai que a imaginação é útil: imaginar o que poderia ser se apenas um detalhe tivesse sido diferente. Geralmente a idéia de comunidade é usada para definir manifestações culturais, vide um jogo de futebol (todo mundo eliminando as diferenças para ir a um estádio) ou carnaval (explicitada no texto), observemos também a religião, até onde a imaginação pode influenciar à comunidade. Mas NUNCA a imaginação é usada em sentido mais universal quando ligada a ações públicas, a melhoramento no tocante às rel(a)ções públicas. Falta nesse ponto o ‘‘apolíneo’’. Brasileiro sabe muito bem como conseguir o que quer em para ir às festas, para comprar ingresso de jogo de futebol, para dar dinheiro ao povo da igreja. Mas não sabe refletir sobre o futuro da nação, não sabe fazer greve em prol de melhorias no trabalho, não sabe decepcionar-se e mudar quando lembra das decepções que teve. São indiferentes nestas horas.
Enfim, desejo equilíbrio a todos. Conquistem-no. Embriaguem-se, mas também sejam lúcidos quando necessário.
- Vejam também um texto que o Jorge fez sobre o mesmo tema aqui.

Inquieta. Estudante de filosofia. Amante do saber. Amiga da sabedoria. Repleta de dúvidas. Angustiada.
E-mail: dinha.filosofa@gmail.com






4 respostas Até agora ↓
Breno // Fevereiro 7, 2008 às 12:15 am |
“sejam lúcidos”
hehehehehehehe
quem entra no teu blog num deve nem tomar uma, dinha!
beber = desculpa pra fazer bobagens.
Nação é fodademais
Angustiada Consciência // Fevereiro 7, 2008 às 12:19 am |
hahahaha, tudo chato né, breno?
Jorge Alberto // Fevereiro 7, 2008 às 12:47 am |
O sentido da festa é o mesmo sentido do grupo. Todos nós tendemos a nos identificar com este (s) ou aquele (s) grupo (s), fato comprovado à visão de qualquer arquibancada de estádio de futebol no nosso caso específico. Este sentido de grupo, de identificação foi que nos fez ser mais astutos do que velozes quando descemos das árvores para não virar almoço de algum felino predador.
Como você bem relatou, a simbologia da festa (grupo) é a que faz haver identificação. Este ou aquele símbolo, postura e gestual nos fornecem meios para estabelecer esta relação simbiótica, eu diria, entre o indivíduo e o coletivo. Porém, o mais interessante de tudo é que não precisamos pertencer a este ou aquele grupo específico. Temos a capacidade do discernimento e também o arbítrio.
Também me surpreendo com certas visões acadêmicas ou academicistas e concordo com a citação do Hume que você fez. Será que não entendem que sujeito e objeto interagem quando estamos inseridos umbilicalmente numa cultura específica? Ah, mas vão citar Malinowksi, Radcliff-Brown, Mauss e outros antropólogos que deram início ao pensamento científico nas Ciências Sociais um pouco depois de Durkheim concluir que a sociedade é um ser coercitivo. Por isso a necessidade identidade com um determinado grupo, pertencer a um grupo para não ser marginal, não no sentido policial do termo, mas no sentido de estar à margem daquele grupo e, por conta disso, não participar do que há de bom ou ruim.
Dê uma lida no post “Qual o sentido do samba na sociedade brasileira?”, o trecho de um livro do Muniz Sodré que eu coloquei no Recanto das Palavras.
O Carnaval nos faz mais brasileiros « Recanto das Palavras // Fevereiro 7, 2008 às 12:53 am |
[...] Leia no Dúvidas & Angústia uma reflexão muito boa sobre o Carnaval. [...]