Não vi texto mais esclarecedor sobre Olavo de Carvalho. Encontrei aqui. Depois faço um texto sobre o Olavo de Carvalho. Aguardem.
TAQUI PRA TI
EDUCANDO PARA A BOIOLICE?
José Ribamar Bessa Freire
29/04/2007 - Diário do Amazonas
O taxista estava convencido de que sinalizar era demonstrar medo e que dar uma fechada provava sua coragem e virilidade. Por isso, preferia arriscar mil vidas a ser considerado um ‘maricón’. Quando homens necessitam dirigir agressivamente para afirmar sua masculinidade é porque a sociedade está doente e as normas de convivência foram para o beleléu. Mais grave ainda quando alguém defende que é exatamente assim que os professores devem educar seus alunos: formando machos e não boiolas.
A pedagogia do taxista
Essa é a tese de Olavo de Carvalho em artigo ‘Educando para a boiolice’ no Diário do Comércio, no qual discute a responsabilidade pelo massacre ocorrido na Virginia Tech. Ele pergunta: “Por que ninguém atacou o coreano maluco enquanto ele recarregava sua pistola?” A resposta é contundente: por causa da “epidemia de frescura na escola”, que forma alunos “tímidos, fracotes e efeminados”. O autor usa depoimento de seu filho Pedro, que estudou um ano e meio na Virginia. O rapaz, falando por experiência própria, confirma: “É uma educação para boiolas”.
Não sabemos se Pedro, filho de peixe, foi bom aluno. Mas seu pai adverte que boiola - cujo equivalente em inglês é sissy - “não é necessariamente um gay”. Boiolice nada tem a ver com o sexo, é “uma covardia abjeta, um desfibramento da alma, uma pusilanimidade visceral que os educadores de hoje em dia consideram o suprassumo da perfeição moral. É a fórmula da pedagogia usada nas escolas públicas americanas”.
Se os jovens são obrigatoriamente efeminados é porque “passam o ano inteiro só aprendendo boiolice”, ensinada em “cada página dos manuais didáticos” e nas aulas. “Cada vez que um professor abre a boca em sala de aula, espalha mais um pouco desse entorpecente pedagógico nos cérebros infanto-juvenis”.
Contra tais princípios, o autor defende pedagogia similar a do taxista: “As escolas têm de ensinar os meninos a serem mais agressivos”. Justifica, afirmando que a bandidagem só ataca nas escolas porque sabe que os estudantes são boiolas. Propõe: “As escolas têm de planejar sua defesa e reagir com igual agressividade. O treinamento tem de ser tão intensivo e levado tão a sério quanto o assassino leva a sério sua missão de matar”.
A Escola do Carvalho
Segundo o autor, o modelo que transforma a sala de aula num campo de batalha deve ser implantado, no Brasil, cuja situação é ainda “mais desesperadora que a dos americanos” porque no nosso país “a boiolice está espalhada entre homens adultos, nas ruas, nas fábricas, nos escritórios e essa gente tem medo de armas até quando vistas pelo lado do cabo”. Faça o teste, leitor, para saber se você é boiola!
Fico imaginando o ‘treinamento intensivo’ nessa Escola do Carvalho. No currículo do Maternal, para aquecer as crianças, devem constar obrigatoriamente as disciplinas “Xingamentos e Palavrões” “Tapas, Bofetes e Mordidas” e “Pistolas de água”. No Ensino Fundamental seriam ministradas “Armas brancas” e depois “Introdução ao manejo de armas de fogo”, como pré-requisito para “Técnicas de Pontaria”, “Tiro ao alvo I e II” e “Explosivos e Granadas”.
O leitor amazonense, perplexo, se pergunta: “Mas, afinal, quem é Olavo de Carvalho no jogo do bicho?” A página pessoal do dito cujo na internet não economiza auto-elogios e afirma na maior cara-de-pau: “Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, SP, em 29 de abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros”. Eita ferro! Não é gozação não! Juro que está escrito assim. Qualquer leitor pode ir lá e conferir.
Ex-colunista do jornal O Globo, da revista Época e do diário Zero Hora, Olavo de Carvalho foi desligado, quando descobriram que ele não é aquilo que ele diz que é. Revoltado, escreveu: “Querem saber do que mais? O corte brutal do meu orçamento doméstico é, nas presentes condições, uma libertação. Vou mais é para Virginia Beach tomar banho de mar e participar da alegria nacional deste país hospitaleiro e generoso. O Globo que se dane”.
Comicidade intraduzível
O Globo não se danou, mas Olavo hoje mora em Richmond, na Virginia. No entanto, o visto de residência concedido pelo ‘país hospitaleiro’ não lhe permite exercer trabalho remunerado. Sua página na internet explica que é difícil os americanos entenderem seus ensaios eruditos, porque ele usa “a linguagem popular, incluindo muitos jogos de palavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis”, o que confere aos textos “uma profundidade surpreendente”.
A profundidade é discutível, mas quanto à comicidade, ele tem razão: ela é intraduzível até ao português. Por essa razão, Carvalho sobrevive ministrando cursos à distância de História da Filosofia para alunos no Brasil, escrevendo para o Jornal do Brasil e o Diário do Comércio e recebendo contribuição de admiradores, entre os quais estão militantes da Ação Integralista Brasileira, organização de extrema-direita.
Olavo de Carvalho parece que não perdoa o fato de ter ficado de fora da academia. Por isso, esculhamba as universidades e os intelectuais. “A USP sempre foi o templo da vigarice intelectual”, ele escreve. Marilena Chauí e Artur Gianotti são “impostores”. Em contrapartida, é motivo de chacota nas universidades, onde ninguém o leva a sério.
Henrique Sobreira, professor da UERJ, fez a maior gozação: “Depois de décadas ‘dormindo na caixa’, Olavo de Carvalho, finalmente, ‘saiu do armário’. A comunidade GLS, que suportou anos a fio o seu destilado preconceito, lhe dá uma solene ‘beijoca’ de boas vindas ao Clube cor-de-rosa”. Ele recomendou que Olavo lesse vários textos do filósofo alemão Theodor Adorno, nos quais analisa o conceito de “educação para a dureza”, próprio do facismo. Gilberto Moraes, outro professor da UERJ, acredita que “Olavo nunca esteve diante de uma arma, passível de tomar um tiro de um bandido”.
O que Carvalho não entende é que a vitória do pensamento macho-taxista-carvalhista é a morte da sociedade. Não é a escola que deve ficar “macha”, mas a sociedade que deve viver os valores humanistas. Isso é possível, conforme Nelson Mandela, porque “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Mas para isso é necessário uma “escola-boiola”. Vai ver o negão falou isso porque é ‘boiola’, pensará Carvalho.
Inquieta. Estudante de filosofia. Amante do saber. Amiga da sabedoria. Repleta de dúvidas. Angustiada.
E-mail: dinha.filosofa@gmail.com






10 respostas so far ↓
ohermenauta // Fevereiro 25, 2008 às 5:12 pm
Cética meets Olavón.
Ótimo texto o do Bessa Freire. Aguardo o seu com ansiedade.
Em outros tempos (e outro blog) já fui um prolífico olavo-basher. Mas nos dias que correm ele foi deslizando para uma merecida e saudável irrelevância.
Thiago Pininga // Fevereiro 25, 2008 às 8:28 pm
gostei, cetica (posso te chamar assim?)…um dos papeis da filosofia eh acabar com os mentirosos, os que tatuam uma coruja na pele mas que agem de modo sofista…esse texto, eh bem argumentado ao nivel de olavo, uma vez que falar um pouco mais culto foge a compreenção do mesmo…eh aquela coisa de acatar a pessoa, (argumentum ad homini ofensivo), e usar da mesmo(a) metodo/comicidade (?) do olavo com o porem que esta eleva enquanto a outra (de carvalho) regride…
Thiago Pininga // Fevereiro 25, 2008 às 8:47 pm
fiz propaganda do teu blog lah no meu…
Angustiada Consciência // Fevereiro 26, 2008 às 10:42 am
Ah, hermenauta. Eu queria fazer com o Olavo o que você faz com o Reinaldo. Mas eu tenho medo das Olavetes. E das sequelas, já que eu tenho que perder tempo lendo um pouco o doente.
Angustiada Consciência // Fevereiro 26, 2008 às 10:43 am
Aguarda, Thiago. Depois escrevo e você diz se concorda. Pode me chamar de Cética sim. Ah, obrigada por divulgar o blog.
Thiago Pininga // Fevereiro 28, 2008 às 5:18 pm
De nada. Tenho umas perguntas:
O livro O Imbecil Coletivo é um livro autobiografico?ao estilo confissões?
Dado o carater Neosofista do nosso tempo, Olavo faz parte do chamado grupo Naofilósofo?
A mais instigante de todas, Olavo acredita realmente no que diz ou está tentando provar que é possivel ficar rico com a filosofia (a saber, contra ela)?
tow esperando o que vc irá escrever…
Angustiada Consciência // Fevereiro 29, 2008 às 10:33 am
Boas perguntas, Thiago. Mas responda você! ahahaah Eu não quero nem começar a falar o que penso do Olavo, pois não sei se consigo parar rápido.
Thiago Pininga // Fevereiro 29, 2008 às 3:28 pm
você sabe que existe um pensador presocratico que dizia que o nada é indizivel e impensavel…pois bem…essa foi sua resposta:
“Eu não quero nem começar a falar o que penso do Olavo(…)”
nem se vc quisesse falaria e pensaria, pois o nada é incomunicavel e impensado…como diria parmenides
marcos // Maio 8, 2008 às 11:29 pm
Sua escrita deixa transparecer que a “Coruja de Minerva” não avoou…
bjoss
ROGER // Maio 29, 2008 às 11:35 am
Eu concordo com quase tudo que o Olavo escreve e diz.
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