Eu tive algumas aulas angustiantes nesses dias e que me fizeram pensar sobre a condição dos que desejam lecionar no campo da filosofia.
A impressão que eu tenho é que existem dois grupos: um é formado por aqueles que passam a vida inteira para serem ‘‘reconhecidos’’ como fontes seguras de saber, enquanto o outro é formado por aqueles que conseguiram chegar ao mesmo patamar do primeiro grupo, mas ‘‘apadrinhados’’ por outros filósofos mais velhos e já reconhecidos. O primeiro grupo é formado por sofredores que se acostumaram com a escassez de livros nas bibliotecas públicas, mas que conseguiram aprender, com grande esforço, a produzir conhecimento e a divulgá-lo (o famoso movimento que Platão já havia falado sobre na obra A República: anábasis – obtenção de conhecimento, ascender; e katábasis – divulgar, repassar conhecimento, descender). O segundo grupo é formado pelos que não sofreram, sempre tiveram apoio dos outros já inseridos no círculo filosófico e nunca sentiram o peso de um erro pois, mesmo buscando da mesma forma que o primeiro grupo, nunca se importaram com o conhecimento, apenas com o sucesso em construírem suas monografias, dissertações e, se possível, defenderem suas teses.
As pessoas do primeiro grupo não ignoram o que os aspirantes a filósofos venham a falar, pois não esquecem que já foram ‘‘apenas estudantes’’ – ora, como poderiam esquecer o pior período de suas vidas, o mais angustiante (pausa para observação: daqui a pouco até o turismo sexual vai ser reconhecido como profissão, mas a atividade estudantil nunca chegará nem perto), as pessoas do primeiro grupo enxergam a relação professor-aluno como sendo produtiva, jamais iriam fazer chacota com as perguntas dos alunos, por mais imbecis que possam ser algumas vezes.
As pessoas do segundo grupo já não se importam com perguntas de alunos, com aspirações, divagações e muito menos com o diálogo. As pessoas do segundo grupo tomam a Filosofia como qualquer outra disciplina – detestável. Fizeram isto com a Biologia, com a Física, com a Matemática, por que a Filosofia seria a exceção? Mas o melhor não é isso, o melhor é quando elas acham que uns livros publicados os tornam invulneráveis a toda e qualquer argumentação ou crítica. Se prendem na tradição (se afogam seria mais apropriado) e na primeira oportunidade dizem: ‘‘você não está entendendo nada.’’
Isto escutado numa palestra é até interessante. Eu, pelo menos, ria demais do Ernst Tugendhat
quando ele atacava os ‘‘nietzscheanos’’ ou qualquer um que desvirtuasse o tema principal da palestra. Mas em aula é brincadeira. No entanto, como eu sou uma pessoa doce e querida, NÃO DESISTO de perguntar única e exclusivamente pensando no que eu quero perguntar. Afinal, gostando ou não, eu preciso de ambos os grupos e não interessa o que eles fizeram ou deixaram de fazer para saberem o que eu quero saber.
Mas no final a gente sabe. Ah como sabe. Humildade intelectual não é para qualquer um, mas os que conquistam o respeito dos alunos com este pequeno detalhe…não precisam se preocupar. O que se ganha não se perde tão fácil. Não sei com outros assuntos, mas com conhecimento é assim. Mamãe diz: ‘‘o único bem que vou te deixar é o conhecimento’’. Mamãe se referiu à condição de possibilidade de obter conhecimento. É tudo tão difícil mãe, mas vou até o final.
Inquieta. Estudante de filosofia. Amante do saber. Amiga da sabedoria. Repleta de dúvidas. Angustiada.
E-mail: dinha.filosofa@gmail.com






2 respostas so far ↓
Sblargh // Março 6, 2008 às 8:35 am
Não tenho como julgar o que aconteceu na sua aula, particularmente, gosto da maneira do talento que certos professores têm de dizer para o aluno “você não sabe nada” (claro, há de haver mais elegância do que impaciência nesse ato), porque afinal, acho difícil ensinar filosofia sem constantemente lembrar o aluno de que não importa o quanto ele leu ou o quanto sabe, que ele ainda não leu/sabe o bastante.
De nenhuma forma estou advogando o “estar fechado ao díalogo”, muito menos o “não responder a dúvidas”, isso é coisa de professor incompetente mesmo, não sei se está relacionado ao sucesso ou carreirismo; encontrei no colégio esse tipo de dizer “você não sabe o que fala” e ignorar na figura dos profissionais mais fracassados que claramente não aturavam mais seus empregos, mas eram medíocres/ocupados demais para dar continuidade a carreira. Na faculdade, “by default”, nenhum professor é considerado um fracasso impublicável e obscuro (fazer parte do corpo acadêmido de uma univesidade implica produzir artigos e ter acesso a algum reconhecimento), logo todo professor incompetente da universidade, será do tipo “especialista” (porque também o é todo professor competente).
Quanto a tratar filosofia como outras matérias, essa sim uma discussão que acho interessante, é uma posição que pode ser bem fundamente, mas acho que ignora o talento mais interessante da filosofia, o de analisar o “fenômeno mundo” em sua totalidade, não só em suas relações empíricas de causa e efeito ou na consistência dos discursos formulados sobre tal fenômeno, mas em todo seu espectro de possibilidades.
Angustiada Consciência // Março 6, 2008 às 4:10 pm
Sblargh, imagina ensinar filosofia e tentar não cair no ”está certo”, ”não está certo”. Complicado, não?
Acho complicadíssimo ensinar filosofia, principalmente se for criança ou adolescente.
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