Dúvidas & Angústia.

Olavo de Carvalho

Março 1, 2008 · 58 Comentários

Há pouco tempo eu fiquei sabendo quem é Olavo de Carvalho. Olavo Carvalho como figura pública, diga-se de passagem. A primeira coisa que falaram foi: ‘‘ele é filósofo de Orkut’’. Confesso que achei estranho, mas poderia ser diferente no melhor sentido da palavra…

No entanto, a sensação que eu tive não foi boa e até agora não mudou. Tento explicar o porquê então.

Para começar, o que pensar sobre isto:

Nos anos 90 do fim do século passado, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho inaugurou uma nova fase na filosofia e no debate intelectual do Brasil. Ao lançar obras filosóficas como Aristóteles em Nova Perspectiva e O Jardim das Aflições . De Epicuro à Ressurreição de César , entre outras, imprimiu no pensamento filosófico brasileiro um rumo completamente diverso da dominação doutrinária impingida pelos autoproclamados pensadores que eram (e são), apenas, professores universitários de esquerda.

Na esfera pública, Olavo seguia (e segue), como já declarou, na tentativa de formar uma elite intelectual mediante aulas, cursos e divulgação de ideias pelos jornais, revistas e site ( www.olavodecarvalho.org e www.midiasemmascara.org )

Tudo bem, como já me avisaram, existe um abismo enorme entre a nossa velha Academia e o que se pode chamar de Comunidade Intelectual. Aliás, eu sempre soube, desde que eu comecei a freqüentar alguns encontros que eram conhecidos por possibilitar à Fortaleza um diálogo com intelectuais de diversas partes do mundo. E mais: pela disputa de egos entre os acadêmicos e os intelectuais. Soube disto quando eu falei a algum professor sobre o tal Simpósio e ele respondeu: ‘‘lá tem tudo, menos Filosofia’’.

Agora palavras do próprio ‘‘filósofo’’ em questão. Olavo de Carvalho diz:

Denomino paralaxe cognitiva o deslocamento, às vezes radical, entre o eixo da construção teórica de um pensador e o eixo da sua experiência humana real, tal como ele mesmo a relata ou tal como a conhecemos por outras fontes fidedignas. Raro e excepcional na Antiguidade e na Idade Média, esse deslocamento começa a aparecer com frequência cada vez mais notável a partir do século XVI, dando a algumas das filosofias modernas a aparência cómica de gesticulações sonambúlicas totalmente alheias ao ambiente real em que se desenvolvem. Um exemplo claro é a teoria de Kant sobre a incognoscibilidade da “coisa em si”. Se não conhecemos a substância das coisas materiais, mas somente a sua aparência fenoménica, que esperança podemos ter de atingir um dia, a partir de indícios materiais, isto é, letras impressas numa folha de papel, a substância da filosofia de Immanuel Kant? Certamente o filósofo de Koenigsberg não se contentaria se apreendêssemos somente a aparência fenoménica da sua filosofia, a qual filosofia, nesse sentido, é radicalmente incompatível com o acto de escrever livros – e olhem que Kant os escreveu em profusão. Por mais coerente que seja consigo mesma, a filosofia de Kant é incoerente com a sua própria existência de obra publicada.

É, nesse ponto realmente parei para pensar sobre a ligação entre o que Kant falou e o que é a substância da filosofia de Kant. Já pensou se alguém que não tem noções mínimas sobre filosofia lê isso? O que pode acontecer? Eu não sei o que pode acontecer, mas pode afirmar que boa coisa não vai ser. No mínimo, a criatura vai repetir erros tão grosseiros quanto o erro do Olavo de Carvalho que, ao tentar expressar sua opinião sobre a filosofia de Kant, beiram ao ridículo. Uma coisa é ler Kant sem tentar colocar idéias que não são do autor e outra coisa é ler Kant, não gostar e sair por aí falando de substância, fenômeno e ‘‘incompatibilidade’’ entre a vida e obra do autor. Kant, coitado, é um autor extremamente deturpado. Ele foi tão claro, mas cometeu o erro de ter uma obra tão rica, tão vasta que qualquer um acha-se no direito de falar da sua filosofia com um relativismo contemporâneo tão banal que pode ser visto como doentio. Espero que um dia ele (Olavo de Carvalho) reconheça algo que alguns pensadores – independente de serem ou não reconhecidos como intelectuais – chamaram atenção, entre eles, Gadamer ao proferir estas palavras: ‘‘Primeiramente, penso que aquele que filosofa tem de ter consciência da tensão entre suas próprias pretensões e a realidade na qual ele está”. Desculpe-me, senhor Olavo, por usar da tua mesma idéia, mas com uma pequena diferença: não ignoro a contribuição de grandes autores da história da Filosofia.

Noutro momento, o senhor Olavo de Carvalho afasta-se um pouco de argumentos grosseiros e provavelmente no que ele chama de aula, é expresso o seguinte:

Mais ingênua, portanto, do que a confiança dogmática do racionalismo clássico no poder cognoscitivo da razão, mais visionária que a pretensão dos místicos a um conhecimento experimental de Deus, é a confiança no poder humano de por em dúvida aqueles princípios que fundam a possibilidade mesma da dúvida. Mais ingênuo que qualquer dogmatismo é o princípio mesmo da filosofia crítica, que pretende estatuir dedutivamente limites contingentes e indutivamente limites necessários. Mais ingênuos do que nossos antepassados, que acreditavam na revelação e na razão, somos nós, que acreditamos em Descartes e em Kant, supondo que a negatividade do seu ponto de partida seja prova de modéstia metodológica, quando ela oculta, na verdade, a mais sobre-humana das pretensões: a pretensão de estabelecer limites absolutos ao conhecimento humano. Pretensão superior à do próprio Deus, que não cercou de grades o fruto proibido, mas o deixou ao alcance da curiosidade de Eva.

Antes de expressar o comentário acima, ele explicitou a filosofia de Kant de forma interessante, ou seja, se comportou como um professor deveria fazer. E mesmo quando ele comentou as suas desconfianças para com a filosofia de Kant, ele não usou de uma argumentação pobre, mas despertou a reflexão, o livre pensar. Alguém já havia me falado que o Olavo de Carvalho tem algumas boas explicações sobre Filosofia e eu não acredito que a pessoa que me falou esteja errada, mas existe uma diferença enorme entre o Olavo de Carvalho falando sobre a História da Filosofia e o Olavo de Carvalho filosofando.

Aqui :

Quando recoloquei em circulação neste país o estudo da arte de argumentar – da qual imediatamente os macaqueadores começaram então a falar no tom de quem tivesse longa experiência do assunto — , não esperava que a palavra “argumento” se transformasse no fetiche em que se transformou. É característico dos macacos intelectuais achar que tudo é uma questão de “ter argumentos”. Nem suspeitam que a argumentação é a parte mais baixa e rudimentar do treino filosófico. Dois argumentos perfeitamente iguais podem expressar idéias diferentes, uma verdadeira, a outra falsa, conforme a representação mental por trás de cada uma. Não existem “sentenças” verdadeiras e falsas: verdadeiro ou falso é o juízo por trás da sentença, o que você está efetivamente pensando – e ao pronunciar uma sentença aparentemente verdadeira você pode não estar pensando nada, ou então pensando uma falsidade completa que, por coincidência, se exprima com as mesmas palavras de um juízo verdadeiro.

 

 

E aqui:

 

Pior ainda quando as palavras que substituem o objeto ausente vêm associadas a valores emocionais e o fulano acha que ao defender estes últimos está “argumentando”. Infelizmente foi isso o que aconteceu na quase totalidade das discussões em que me meti com brasileiros, principalmente “intelectuais”. Argumentos genuínos – eventualmente falsos no confronto com a realidade, mas genuínos enquanto argumentos – só encontrei nos EUA e na Europa. No Brasil ninguém mais sabe o que é isso.

 

Quando Olavo de Carvalho fala: ‘‘Nem suspeitam que a argumentação é a parte mais baixa e rudimentar do treino filosófico. Dois argumentos perfeitamente iguais podem expressar idéias diferentes, uma verdadeira, a outra falsa, conforme a representação mental por trás de cada uma. Não existem “sentenças” verdadeiras e falsas: verdadeiro ou falso é o juízo por trás da sentença, o que você está efetivamente pensando – e ao pronunciar uma sentença aparentemente verdadeira você pode não estar pensando nada, ou então pensando uma falsidade completa que, por coincidência, se exprima com as mesmas palavras de um juízo verdadeiro’’, eu até entendo o que ele quer passar, muitas vezes também me coloco diante de velhas argumentações que não possuem validade alguma, mas que parecem expressar a verdade mais poderosa, simplesmente pela argumentação e técnica dos locutores. Mas sabemos que muitas vezes o desejo de expressar algo é diferente de expressar esse algo e não podemos confundir isto com ‘‘o que você está efetivamente pensando’’ e o fato de ‘‘pronunciar uma sentença aparentemente verdadeira’’. Compreendem? Espero que sim. Imaginem, as pessoas costumam interpretar de maneira equivocada o que é completamente claro, quanto mais exigir de uma pessoa a interpretação do que a outra está EFETIVAMENTE PENSANDO. Faça-me rir.

‘‘Argumentos genuínos – eventualmente falsos no confronto com a realidade, mas genuínos enquanto argumentos – só encontrei nos EUA e na Europa. No Brasil ninguém mais sabe o que é isso.’’ Talvez Olavo de Carvalho costuma encontrar pessoas que apreciam o genuíno, assim como ele aprecia. Mas penso que existem muitas pessoas que não apreciam apenas o ‘‘genuíno’’, mas o que é válido. Não sei se adianta muito sair por aí falando sobre pensamentos ousados e que, apesar de serem falsos no confronto com a realidade, podem mudar um pouco a cabeça de algumas pessoas e a relação destas com as coisas do mundo. Eu já vi boas exposições de outros ‘intelectuais estrangeiros’’, mas que não tem muito a ver com o desejo de ‘‘pensar algo novo (genuíno)’’, mas pensar algo realmente válido, coerente. No entanto, este caráter de pensar algo válido, coerente, não invalida o caráter genuíno. Pelo contrário. Eu, por exemplo, assisti uma conferência muito boa ano passado que falava da ‘‘necessidade’’ e ‘‘possibilidade’’ como conceitos filosóficos e o ataque do 21 de setembro nos EUA. Explico: a idéia era baseada no conhecimento que o governo tinha da situação e no conhecimento do ‘‘inevitável’’, mas que o governo fingia ignorar por culpa das relações políticas e o peso que uma afirmação sobre a situação iria ter. Mas o interessante é que o palestrante/conferencista foi testando as possibilidades de um ataque a partir de fatos e expondo, em contraponto, a necessidade de um ataque maior – necessidade aqui tomada como inevitável, ineliminável.

Então, não há como negar a Olavo de Carvalho’s influence on Brazilian media and politics, mas qual a garantia disto? Se ele tem influência na vida dos brasileiros é porque, de alguma forma, ele usa ferramentas acessíveis à maioria. Aliás, não só no Brasil. Vide as entrevistas que ele – com toda a sua boa base cultural – faz, por exemplo, àquelas que ele responde como se fosse um português. Todo mundo sabe que há uma diferença entre o português do Brasil e o português de Portugal, este muito mais erudito que aquele. Provavelmente, um artigo escrito nos moldes da língua dos nossos colonizadores possui bem mais visibilidade que um artigo escrito nos moldes da nossa língua. (Língua aqui tomada como diferente para deixar claro a diferença da fala, da escrita, etc.)

E o que é pior: já li também que ele ‘‘é uma das grandes figuras do nosso tempo, não só em língua portuguesa mas como a nível global.’’ E li isto de gente inteligente, o que me deixou surpresa.

Eu sei que poderia utilizar o seguinte:

Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no “inconsciente” das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido. O trabalho mais vigoroso nas ciências humanas do século XX, por exemplo, só aconteceu depois da existência do Instituto Warburg, fundado em Londres por um milionário judeu fugido da Alemanha, que juntou, durante 20 anos, as melhores cabeças do século em torno de uma coleção de manuscritos astrológicos e alquímicos. Sem este estudo, a comunidade acadêmica nunca teria qualquer possibilidade de compreensão real das civilizações antigas, (…)

Para afirmar o abismo que há entre mim e Olavo de Carvalho. Certamente me tornarei pó antes de compreender que sou burra porque nunca estudei astrologia. Agora entendi quando falam que ignorância é uma benção. Mas isto não vem ao caso. O que quero falar é que eu fico perplexa com gente defendendo Olavo de Carvalho. Uma vez alguém me falou que não existem ‘‘fases’’ em relação às pessoas e isto me pareceu coerente, pois mesmo quando a pessoa possui várias fases de entendimento no decorrer da vida, são essas fases que a definem, não dá para escolher uma delas e dizer que esta é a pessoa. Eu sei que posso morrer de vergonha algum dia por ter escrito este texto sobre o Olavo, por exemplo; mas não vou negar o que sou. Como costumo dizer: sou uma livre-pensadora, antes de tudo. Não posso ignorar as aberrações, digo, as figuras intelectuais influentes do meu tempo. Quando eu coloco que o Olavo de Carvalho é louco por negar o valor de Darwin sempre tem alguém para dizer: ‘‘é corrente a confusão entre técnica e ciência, não?’’. Sim, cara pálida, eu sei. Mas daí a separar o que Olavo de Carvalho falou um dia e o que ele fala hoje, é inaceitável para mim. E mesmo eu leio alguns artigos sobre novas leituras de Darwin (pós-darwinistas ou não) e percebo que não negam a influência de Darwin e isto não os impede de assumir novas posições quanto à ciência, inclusive posições totalmente contrárias. Eu falo tudo isso para deixar claro que não dá para fugir da tradição, do que já foi feito. E uma criatura que ignora isso está se comportando como um esquizofrênico, autista, ou algo do tipo. Certamente vem alguém me dizer: ‘‘ah, mas você não parece cética’’. Eu respondo com: sou cética, não idiota. Desconfio de toda e qualquer espécie de regra, mas o indivíduo que torna públicas informações acerca do que não sabe ou do que finge não saber é como um palhaço que se diverte mais que os seus espectadores.

Então se alguém (isto vale também para Olavo de Carvalho) falasse para mim: “meninos de ginásio” (como o que ele – ou outro se passando por ele – falou para o Eli), eu diria: isto é o máximo que você consegue falar sobre mim, sim? Ou citaria o que falaram de forma bem melhor:

Henrique Sobreira, professor da UERJ, fez a maior gozação: “Depois de décadas ‘dormindo na caixa’, Olavo de Carvalho, finalmente, ‘saiu do armário’. A comunidade GLS, que suportou anos a fio o seu destilado preconceito, lhe dá uma solene ‘beijoca’ de boas vindas ao Clube cor-de-rosa”. Ele recomendou que Olavo lesse vários textos do filósofo alemão Theodor Adorno, nos quais analisa o conceito de “educação para a dureza”, próprio do facismo. Gilberto Moraes, outro professor da UERJ, acredita que “Olavo nunca esteve diante de uma arma, passível de tomar um tiro de um bandido”.

Eu posso ter bem menos décadas que o senhor Olavo de Carvalho, mas isto não me impede de falar sobre uma figura que tem um numeroso público e de várias áreas, figura essa tratada como professor, inclusive. Se todo professor fosse tão defendido como Olavo de Carvalho é, a profissão de educador seria mais reconhecida. Mas aí encontra-se o problema, os alunos do Olavo de Carvalho não encontram outra realidade além da realidade que o professor indica/aponta. Tente discordar de 1/3 de algum texto que você será esmagado pelo peso não intelectual, mas do mesmo nível provocativo do professor (com direito a palavrões e tudo!), pois eles aprenderam assim.

Agora me respondam vocês: são filósofos e intelectuais como Olavo de Carvalho que o nosso tempo está formando? Se sim, por favor, apontem para o desconhecido, apontem um filósofo africano, um filósofo asiático, pois de filósofos/intelectuais brasileiros e/ou filósofos/intelectuais que possuem influência global, eu quero distância. Isto só comprova que a Mídia, com ou sem máscara, só nos apresenta informações soltas e nada de conhecimento. Eu neste texto só poderia fazer o mesmo, coletar informações soltas, pois conhecimento não pôde ser encontrado, muito menos produzido, pelo menos não do que eu li. Deve ser porque eu não estudei astrologia (ops, escapou!).

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