É bem complicado tocar no assunto mulher, pois este assunto vem carregado de tabus, preconceitos e visões estereotipadas. Mas eu quero escrever. No entanto, aviso: não penso e nem concebo a mulher como um ser isolado, mas penso a mulher como um ser que tem caráter decisivo na história.
Sabemos que por muito tempo a mulher foi ignorada, humilhada e tomada apenas como um objeto no sentido de não ter autonomia e consciência de suas capacidades, com exceção das capacidades que o sujeito – homem – atribuía a ela.
Os tempos mudaram, mas a mulher ainda sente conseqüências das escolhas que ela nunca pôde fazer, ou melhor, da condição que a impediu de ela ser um pouco diferente. O conservadorismo arcaico serve de exemplo aqui para ressaltar os obstáculos que a mulher ainda tem que enfrentar, começando por idéias dos próprios pais que ‘‘indicam’’ qual seria a melhor profissão, qual seria o marido ideal, etc.
Obviamente existem algumas culturas em que a mulher não cogita sequer a possibilidade de abandonar a sua ‘‘inferioridade’’ e os homens não abandonam a necessidade de controlar as mulheres. Este é um desafio que pode ser enfrentado, não sei quanto tempo será necessário, mas não é impossível. Jean-Jacques Rousseau já dizia n’O Contrato Social: ‘‘Portanto, se há escravos por natureza, é porque houve escravos contra a natureza. A força constituiu os primeiros escravos, a covardia os perpetuou’’. Comparo aqui a situação de algumas culturas com o período da escravidão.
O que quero afirmar é o seguinte: toda mulher deveria entender que possui a mesma ‘‘racionalidade’’ do homem, mas que precisa aprender a expressar isso, inclusive, confrontando com todos os erros já cometidos nas tentativas de torná-los (homens e mulheres) diferentes.
Mas essa ‘‘qualidade’’ (igualdade) não pode ser levada a tudo, me refiro às capacidades que a mulher tem de realizar projetos, de concluir planos. Eu admiro as mulheres que brincam com a idéia do ‘‘sexo frágil’’, com a sensibilidade e fazem os homens pensarem que elas são fracas; elas brincam com as mais variadas fantasias – só para não trazer à superfície a força e a inteligência que há por trás de qualquer jogo de sedução.
O engraçado é que há alguns dias um homem falou que se relaciona com várias mulheres, mas no ‘‘final’’ se apaixona pela mais difícil de ser conquistada e a mulher, quando quer um homem especifico, finge ser a mais difícil para provar que ela é ‘‘quem’’ estava ele estava procurando. O quanto isso é verdade eu não sei, mas penso que cada um usa o conhecimento que tem da forma que bem entender. Se uma mulher vai à alguma festa e lá se relaciona com vários homens, isto não quer dizer que ela não tenha o seu valor. O mesmo vale para as mulheres mais reservadas. A maioria das mulheres ainda não entendeu que deve ser reconhecida por outros valores além daqueles já conhecidos, que são os mais superficiais. Se é assim com o homem, por que não com a mulher? Se o homem é reconhecido pela contribuição à civilização, por que a mulher não pode fazer o mesmo? Para mudar a mulher tem mudar também as perspectivas que existem. Aprender a se valorizar a partir do que é entendido por ‘‘valores’’.
Se escutarmos músicas como estas:
Puta - Rogério Skylab
Abre essas pernas - Velhas virgens
Lora Burra - Gabriel, O pensador
Teremos a sensação de que a intenção das bandas é acabar com a imagem da mulher. Mas não é. Esta é a ‘‘imagem’’ que a mulher ‘‘promove’’, é a imagem que ela deixa clara, é assim que ela quer ser conhecida. Há algo errado, o mundo já está tão banalizado (a falta de sentido, o niilismo, o relativismo) que existem mensagens apelativas, mas apelativas no sentido de buscar algo diferente, buscar mulheres que se valorizem. Mulheres, verdadeiramente mulheres.
Se o problema está na (in)capacidade da mulher, então que ela prove que pode, que ela obtenha sucesso no que faz, que seja tão boa ou melhor que o homem. Talvez assim a mulher também possa libertar-se de toda ignorância, libertar-se através do conhecimento da realidade. Não conseguimos mudar se não tivermos consciência da situação atual. Se a mulher vai sempre às festas em que as mensagens principais são: ‘‘Só as cachorras, as preparadas…’’, ela pode reclamar de ser tratada como cachorra? Se uma mulher sonha em relacionar-se com um rapaz estrangeiro única e exclusivamente para morar na Europa, tratando o homem como um objeto (meio para conseguir algo), pode ela reclamar se for tratada como um objeto? Um objeto tão superficial quanto um peixe? (A la Turgueniev)
O que eu quero deixar claro também é que o efêmero, o superficial são deliciosos, mas o desafio, a profundidade também são. A mulher tem tomar consciência de que a situação feminina está insustentável, ela tem que ver a si mesma como sujeito, tem que questionar sobre o que está fazendo e, sobretudo, tem que dar o melhor de si. Só assim o homem pode enxergá-la como igual. A mulher tem que se destacar no que fez, tem que levar a sério o que faz. Acho que só assim ela poderá dizer: ‘‘Sou mulher, sou uma mulher de verdade.’’
Eu, por enquanto, me arrisco a dizer que consigo ser mulher. Consigo ser mulher em meio a todo caos que insiste em me arrastar, que insiste em mostrar que eu não consigo, que sou ‘‘qualquer’’. Mas eu consigo. Eu consigo porque eu amo desafio e quer desafio melhor que ser reconhecida como mulher, mulher de verdade.
Este post é um grito de outras mulheres que lutam por valorização, que lutam contra à hipocrisia, a idéia inicial surgiu através do post da Lys.
Mas tem várias outras pessoas participando. Todas devem ter tratado o tema de uma forma diferente, mas o meu ponto principal é a reflexão. Confiram os outros links dos blogs que participaram da coletiva no link abaixo:
Pela valorização da mulher

ps: Outro texto que fiz.
Inquieta. Estudante de filosofia. Amante do saber. Amiga da sabedoria. Repleta de dúvidas. Angustiada.
E-mail: dinha.filosofa@gmail.com






15 responses so far ↓
Grace Olsson // Março 8, 2008 at 5:37 pm
Adorei sua visita.
Sabe…a primeira vez que meu caminho cruzou o de Anna, a ruandesa do meu post, foi em outubro de 2006. E de cara, eu senti que estava diante de uma pessoa que precisava de mim. Ela me olhava com uma candura, diante de tamanha pobreza, que me enterneceu.
O que foi apenas viagem de pesquisa de conclusao de curso virou uma causa que me faa economizar cada centavo e ir lá. Passei 10 meses sem vê-la por causa de um AVC mas ao reencontrá-la, a unica coisa que ela me falou foi:”que bom que vc sobreviveu mas nao quero que vc se adentre no campo de refugiados à minha procura, diante da sua saude debilitada. Me espera aqui, que todos os dias eu estarei te esperando.”
No último dia que nos vimos, esta semana ao voltar para o Brasil, ela me olhou calmamente, as lágrimas nos olhos e me disse “Desejo que vc não me abandone por que depois de Deus eu coloquei nossas vidas em suas mãos e se vc não nos ajudar não sei o que será de meus filhos. Não penso em mim. Penso neles.”
Fingi que não senti mas saí chorando. Exemplo de mulher forte, abaixa a cabeça quando me fala dos horrores da guerra e me disse :”Escreva sobre a minha história e quem sabe, o mundo não vai se encantar …por que algo me diz que Deus não me abandonou”.
Quanto ás mulheres, e o dia que se comemora, eu acho pouco para tamanha força. Nós somos rocha e pura magia.
Somos ardilosas quando fingimos que o macho comanda quando na verdade, estamos no leme dobarco. Essa sou eu. Eu finjo que meu marido domina tudo e assim, chegamos a um relacionamento saudável. No entanto, não perdi a minha impetuosidade. Nunca tive medo de me impor. E fiz isso no início. Por que se a mulher começa uma relação dando uma de pobre coitada, ela não chega a lugar algum.
Na verdade, acho que cada uma de nós tem as suas artimanhas…risos…
Acho que muita coisa banalizou por que os valores mudaram. E até que ponto essa mudança afeta cada uma , vai da base familiar que cada uma possui.
Beijos e dias felizes, HOJE e SEMPRE!
Lulu on the sky // Março 8, 2008 at 5:55 pm
A mulher tem q saber q não é inferior aos homens. Temos a mesma capacidade de realizar quase todas as mesmas profissões q eles exercem.
Tb participei desta blogagem.
FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER.
Big Beijos
Sonia Horn // Março 8, 2008 at 9:11 pm
Esta é a primeira vez que visito o teu blog. Foi através desta blogagem coletiva que o descobri e posso afirmar que você foi perfeita na tua proposta de reflexão. Este teu pensamento: “… o efêmero, o superficial são deliciosos, mas o desafio, a profundidade também são”, resume o que nós mulheres devemos sempre ter em mente para nós mesmas. Além disso, devemos ‘desconstruir’ esta imagem horrorosa de séculos que criaram de nós brasileiras.
Vai dar trabalho, mas depende de nós.
Parabéns!
ethel scliar // Março 9, 2008 at 10:54 am
Li os dois textos - este e o mais antigo. Muitas, muitas coisas para pensar… Definir conceitos como se mulher, mulhr de verdade, a partir de si e nao no olhar refletido dos outros…É uma longa jornada. Agora, dá mesmo o que pensar esta história, que se acaba no tempo e some na poeira da pré-história dos homens que gostam das mulheres difíceis”. Li num outro post sobre um brasileiro que prefere as brasileiras justamente por isso, porque elas não vão logo “abrindo o jogo”.
Será sempre uma questão de jogos este encontro e desencontgro entre gênereos? Por favor, alguém me dê o manual das regras deste jogo! Bzus, bom domingo!
Amigos da Blogosfera » Blog Archive » Resultados da Blogagem Coletiva “Pela valorização da mulher brasileira” // Março 9, 2008 at 8:07 pm
[...] Marcio, 162. Sam, 163. Lenhador, 164. Claudya, 165. Casa do Chico, 166. Francys, 167. Jorge, 168. Angustiada Consciencia, 169. Jan, 170. Claudia, 171. Alessandra, 172. Feminist, 173. Incompletudes, 174. Luciane, 175. [...]
A vida como a vida quer » Blog Archive » Pela valorização da mulher brasileira (2) // Março 9, 2008 at 10:19 pm
[...] Marcio, 162. Sam, 163. Lenhador, 164. Claudya, 165. Casa do Chico, 166. Francys, 167. Jorge, 168. Angustiada Consciencia, 169. Jan, 170. Claudia, 171. Alessandra, 172. Feminist, 173. Incompletudes, 174. Luciane, 175. [...]
Lys // Março 14, 2008 at 5:41 am
Excelente seu texto e participacao. Concordo que a chamada eh exatamente para a reflexao e esse foi de fato o objetivo principal dessa coletiva. Nos fazer refletir sobre nossa situacao social, nossos proprios “valores”, e mais importante de tudo, rever nossos proprios conceitos.
Um abracao e mais uma vez… brilhante participacao essa sua.
Lys
E a estatistica continua… « Lys, no labirinto de seu universo desconexo // Março 15, 2008 at 1:00 am
[...] Dinha - Belissimo texto que termina com a chamada para a reflexao. Aborda varios aspectos, segundo seu [...]
Sonia Regly // Março 15, 2008 at 11:02 am
Gostei muito do seu blog, assuntos bem atuais, dinâmicos e que nos fazem pensar. Apareça lá no meu Blog, ainda estou começando, mas com muita vontade de aprender.Voltarei outras vezes aqui.
Fábio Vanzo // Março 15, 2008 at 2:51 pm
Atualiza!
Angustiada Consciência // Março 16, 2008 at 11:06 pm
Grace, muito linda a tua história. Muito linda mesmo, vou passar sempre no teu blog p/ te dizer o quanto você é forte e o quanto vale a pena essa ajuda que você dá a pessoas assim.
Lulu on the sky, sim querida. Vou ver seu blog daqui a pouco.
Sonia Horn, sim, depende de nós principalmente, já que encontrar pessoas ”inteligentes” e sem preconceitos é uma tarefa difícil.
Ethel scliar, é um jogo no sentido de que ”precisa ser jogado”. Na filosofia temos um autor chamado Gadamer que trata justamente disso, ele pensa a vida como um jogo, dos quais conhecemos as regras, mas não o ”final”, por isso precisa ser jogado.
Lys, conte comigo sempre.
Sonia Regly, Obrigada.
Fábio.
Cadinho RoCo // Março 17, 2008 at 12:14 am
Também participei desta blogagem coletiva e fiquei muito bem impressionado com seu texto quando então toca em aspectos delicados e imprescindíveis para que tenhamos uma percepção mais aguçada do tema.
Cadinho RoCo
Angustiada Consciência // Março 19, 2008 at 2:38 pm
Obrigada, Cadinho. Vejo já o que você escreveu.
Sonia Regly // Março 19, 2008 at 2:56 pm
Achei muito legal, vc responder a todos que te visitam, isso é bom, nos sentimos importante!!!!!
Obrigada.
re // Abril 3, 2008 at 10:49 am
Penso que esse negócio de a mulher fingir ser submissa quando na verdade comanda é pura ilusão, fingir ser submissa é estar conivente com esta imagem feminna, com este estereótipo, o que termina afetando toda a sociedade, a qual termina por conceber este o papel fundamental da mulher.
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