O Jorge pediu para que eu escrevesse algumas coisas sobre cinco autores preferidos. Bom, é complicado, pois ele citou ‘’meme literário’’, mas nem sempre eu consigo limitar um autor à literatura ou até mesmo dizer o que é literatura. Espero que vocês gostem, falei dos seguintes pensadores: Emil Cioran, Fiodor Dostoiévski, Ivan Turgueniev, Jean-Jacques Rousseau e Mario Quintana. No final, indicarei três blogs para participar também. Lembrando: não precisa colocar trecho de obra, eu o fiz porque sou exagerada.
Emil Cioran (1911 – 1995)
Paulo Ghiraldelli Jr (se não engano) falou que aforismos são como bombas, basta um aforismo para nos destruir. Concordo. Se não for assim não faz sentido. Cioran é mestre nesta arte. Provavelmente muitas pessoas não conseguem ler Cioran, filósofo romeno (quer duas coisas mais esquisitas, filósofo e ainda romeno?!) conseguiu viver bastante tempo na França (acho que uma década) com bolsas de estudo, deve ter lido bastante, mas viveu mais ainda. Ele é um filósofo admirável por conseguir conciliar a Filosofia ao modo de vida, ele vivia a Filosofia, na verdade. Eu sinto muito por ele não ser muito conhecido ou valorizado, talvez justamente por ‘’fugir’’ dos padrões exigidos pela sociedade. Isto me faz sofrer porque, inclusive, é difícil de encontrar livros dele na nossa língua. Mas enfim, Cioran é ácido, não recomendo a qualquer um, recomendo apenas aos que tem bom senso.
Trechos da obra Silogismos da Amargura:
‘’Muito antes da física e da psicologia nascerem, a dor desintegrava a matéria e a angústia a alma.’’
‘’Há dois mil anos Jesus se vinga de nós por não ter morrido em um sofá.’’
‘’Só vivo porque posso morrer quando quiser, sem a Idéia do suicídio já teria me matado há muito tempo.’’
Fiodor Dostoiévski (1821 – 1881)

Dostoiévski, ah Dostoiévski! Sem Dostoiévski eu seria menos lúcida, seria também menos realista. Dostoiévski tirou parte da minha inocência. Ele me ensinou a enxergar as pessoas como elas são. Nas obras de Dostoiévski os personagens possuem certa pluralidade de vozes, – aliás, aspecto chave na compreensão do autor — vozes essas que muitas vezes se chocam ou se contradizem e o autor nos faz acompanhar o duelo dos seus personagens, muitas vezes com tanto realismo que poderíamos muito bem nos encaixar em determinado momento. Nietzsche já dizia que aprendeu psicologia com Dostoiévski. Eu também estou apta a dizer o mesmo. Obrigada, Dostoiévski.
‘’Comparadas com as personagens de Dostoiévski, as figuras da literatura mais antiga parecem ser sempre mais ou menos idílicas e neutras…(…) Dostoiévski descobre o mais importante princípio da psicologia moderna: a ambivalência dos sentimentos e a natureza dividida de todas as atitudes espirituais…(…)Não só o amor e o ódio, mas também orgulho e humildade, vaidade de auto-humilhação, crueldade e masoquismo, o anseio do sublime e a ‘nostalgia da torpeza’ estão interligados em suas personagens’’. (Palavras do crítico Arnold Hauser em História Social da arte e da literatura).
Ivan Turgueniev (1818 – 1883)
Turgueniev é o autor que fala da juventude, dos ideais, da filosofia de uma época. Mas ele fala sobre esses temas nos romances. Turgueniev é o único autor que fala de amor e eu consigo ‘’digerir’’. Ele consegue contrapor o contexto sócio-cultural de uma época aos anseios por liberdade dos jovens e o melhor de tudo: com equilíbrio, com realismo. Não preciso dizer que muitos dos romances não dão certo e é neste ponto que Turgueniev me atrai, ele desperta a idéia de necessidade versus contingência, nos faz questionar acerca dos valores mais íntimos e de seus significados na ‘’síntese’’ da vida.
Reproduzo um trecho do final da obra chamada Ássia:
‘’O que restou de mim, daqueles dias felizes e inquietos, daquelas esperanças e aspirações aladas? O aroma tênue de uma planta insignificante sobrevive a todas as alegrias e a todos os sofrimentos do homem – sobrevive ao próprio homem.’’
Jean-Jacques Rousseau (1712 – 177

Rousseau é um filósofo maravilhoso, tão bom que eu posso colocá-lo aqui no meio da literatura. Exerceu influência até no gênio Kant. Eu sempre sinto uma angústia enorme ao ler Filosofia, mas com Rousseau é um pouco diferente: eu o leio, mas eu me sinto bem por lê-lo, ele dá a impressão que viveu realmente tudo o que escreveu, é uma paixão tão grande, uma maneira tão bonita. Não tenho como eu não me apaixonar. Admiro Rousseau talvez por ele não se enquadrar no perfil de filósofo apenas, mas livre-pensador. Ele sofreu demais e também cometeu atos imperdoáveis, mas não desistiu de escrever, não desistiu do conhecimento. Para vocês terem uma idéia: eu tenho vontade de ler Confissões, uma obra com mais de quinhentas páginas apenas sobre a vida dele, uma autobiografia riquíssima. Abaixo um trecho retirado do Discurso sobre as ciências e as artes:
‘’De onde nascem esses abusos senão da funesta desigualdade, introduzida entre os homens pela distinção dos talentos e pelo aviltamento das virtudes? Eis os mais evidentes efeito de todos os nossos estudos e a mais perigosa de todas as suas conseqüências. Não mais se pergunta a um homem se possui probidade, mas sim se tem talento; nem de um livro se é útil, mas se está bem escrito. As recompensas são prodigalizadas às belezas do espírito, e permanece a virtude desprovida de honrarias.’’
Mario Quintana (1906 – 1994)
Um brasileiro!! Mario Quintana é sutil, é doce. É doce, mas também é irônico. Foi tradutor, foi jornalista e sempre terá um local no meu coração, talvez pela escrita simples, mas original. A leitura que eu faço na espera de uma fila e que me faz rir do mundo, da simplicidade do mundo. Ele é minha fuga, é meu ‘’porto-seguro’’, é meu lugar calmo quando quero fugir da Filosofia. Salve, salve, Mario Quintana!
Recordo ainda
Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai!…
Que envelheceu, um dia, de repente!…
(Mario Quintana)
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