Dúvidas & Angústia.

Mulher

Março 8, 2008 · 15 Comentários

É bem complicado tocar no assunto mulher, pois este assunto vem carregado de tabus, preconceitos e visões estereotipadas. Mas eu quero escrever. No entanto, aviso: não penso e nem concebo a mulher como um ser isolado, mas penso a mulher como um ser que tem caráter decisivo na história.

Sabemos que por muito tempo a mulher foi ignorada, humilhada e tomada apenas como um objeto no sentido de não ter autonomia e consciência de suas capacidades, com exceção das capacidades que o sujeito – homem – atribuía a ela.

Os tempos mudaram, mas a mulher ainda sente conseqüências das escolhas que ela nunca pôde fazer, ou melhor, da condição que a impediu de ela ser um pouco diferente. O conservadorismo arcaico serve de exemplo aqui para ressaltar os obstáculos que a mulher ainda tem que enfrentar, começando por idéias dos próprios pais que ‘‘indicam’’ qual seria a melhor profissão, qual seria o marido ideal, etc.

Obviamente existem algumas culturas em que a mulher não cogita sequer a possibilidade de abandonar a sua ‘‘inferioridade’’ e os homens não abandonam a necessidade de controlar as mulheres. Este é um desafio que pode ser enfrentado, não sei quanto tempo será necessário, mas não é impossível. Jean-Jacques Rousseau já dizia n’O Contrato Social: ‘‘Portanto, se há escravos por natureza, é porque houve escravos contra a natureza. A força constituiu os primeiros escravos, a covardia os perpetuou’’. Comparo aqui a situação de algumas culturas com o período da escravidão.

O que quero afirmar é o seguinte: toda mulher deveria entender que possui a mesma ‘‘racionalidade’’ do homem, mas que precisa aprender a expressar isso, inclusive, confrontando com todos os erros já cometidos nas tentativas de torná-los (homens e mulheres) diferentes.

Mas essa ‘‘qualidade’’ (igualdade) não pode ser levada a tudo, me refiro às capacidades que a mulher tem de realizar projetos, de concluir planos. Eu admiro as mulheres que brincam com a idéia do ‘‘sexo frágil’’, com a sensibilidade e fazem os homens pensarem que elas são fracas; elas brincam com as mais variadas fantasias – só para não trazer à superfície a força e a inteligência que há por trás de qualquer jogo de sedução.

O engraçado é que há alguns dias um homem falou que se relaciona com várias mulheres, mas no ‘‘final’’ se apaixona pela mais difícil de ser conquistada e a mulher, quando quer um homem especifico, finge ser a mais difícil para provar que ela é ‘‘quem’’ estava ele estava procurando. O quanto isso é verdade eu não sei, mas penso que cada um usa o conhecimento que tem da forma que bem entender. Se uma mulher vai à alguma festa e lá se relaciona com vários homens, isto não quer dizer que ela não tenha o seu valor. O mesmo vale para as mulheres mais reservadas. A maioria das mulheres ainda não entendeu que deve ser reconhecida por outros valores além daqueles já conhecidos, que são os mais superficiais. Se é assim com o homem, por que não com a mulher? Se o homem é reconhecido pela contribuição à civilização, por que a mulher não pode fazer o mesmo? Para mudar a mulher tem mudar também as perspectivas que existem. Aprender a se valorizar a partir do que é entendido por ‘‘valores’’.

Se escutarmos músicas como estas:

Puta - Rogério Skylab

Abre essas pernas - Velhas virgens

Lora Burra - Gabriel, O pensador

Teremos a sensação de que a intenção das bandas é acabar com a imagem da mulher. Mas não é. Esta é a ‘‘imagem’’ que a mulher ‘‘promove’’, é a imagem que ela deixa clara, é assim que ela quer ser conhecida. Há algo errado, o mundo já está tão banalizado (a falta de sentido, o niilismo, o relativismo) que existem mensagens apelativas, mas apelativas no sentido de buscar algo diferente, buscar mulheres que se valorizem. Mulheres, verdadeiramente mulheres.

Se o problema está na (in)capacidade da mulher, então que ela prove que pode, que ela obtenha sucesso no que faz, que seja tão boa ou melhor que o homem. Talvez assim a mulher também possa libertar-se de toda ignorância, libertar-se através do conhecimento da realidade. Não conseguimos mudar se não tivermos consciência da situação atual. Se a mulher vai sempre às festas em que as mensagens principais são: ‘‘Só as cachorras, as preparadas…’’, ela pode reclamar de ser tratada como cachorra? Se uma mulher sonha em relacionar-se com um rapaz estrangeiro única e exclusivamente para morar na Europa, tratando o homem como um objeto (meio para conseguir algo), pode ela reclamar se for tratada como um objeto? Um objeto tão superficial quanto um peixe? (A la Turgueniev)

O que eu quero deixar claro também é que o efêmero, o superficial são deliciosos, mas o desafio, a profundidade também são. A mulher tem tomar consciência de que a situação feminina está insustentável, ela tem que ver a si mesma como sujeito, tem que questionar sobre o que está fazendo e, sobretudo, tem que dar o melhor de si. Só assim o homem pode enxergá-la como igual. A mulher tem que se destacar no que fez, tem que levar a sério o que faz. Acho que só assim ela poderá dizer: ‘‘Sou mulher, sou uma mulher de verdade.’’

Eu, por enquanto, me arrisco a dizer que consigo ser mulher. Consigo ser mulher em meio a todo caos que insiste em me arrastar, que insiste em mostrar que eu não consigo, que sou ‘‘qualquer’’. Mas eu consigo. Eu consigo porque eu amo desafio e quer desafio melhor que ser reconhecida como mulher, mulher de verdade.

Este post é um grito de outras mulheres que lutam por valorização, que lutam contra à hipocrisia, a idéia inicial surgiu através do post da Lys.

Mas tem várias outras pessoas participando. Todas devem ter tratado o tema de uma forma diferente, mas o meu ponto principal é a reflexão. Confiram os outros links dos blogs que participaram da coletiva no link abaixo:

Pela valorização da mulher

Valorização da mulher

ps: Outro texto que fiz.

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N’outras palavras: sou muito romântico.

Março 7, 2008 · 2 Comentários

”N’outras palavras: sou muito romântico.

[01h34min]

Caso lesses A Queda de Camus
Despir-me-ias dos meus disfarces
Entenderias melhor a mim
E acaso ‘inda tu me amasses

O altruísmo de minhas leis
Seria sem sua casca
Frágil canoa frente à borrasca
Só casuísmo das nove às seis

Sou egoísta, vilão e reles
O próprio Demo é que defende
A minha causa – só ele entende
Interesseiro à flor da pele

Nas águas frias eu sou julgado
Cinza e frio, cinza e frio, cinza e frio
No abismo eterno sou perdoado
– Seja do Letes a água do rio.

[01h58min]”

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Aos admiradores do ”filósofo”:

Março 2, 2008 · 14 Comentários

O meu texto não foi para refutar e fazer uma crítica severa a Olavo de Carvalho.

Fiquei sabendo que tem gente que fala: ”ah, mas é uma crítica de jardim de infância”.

Não, criaturas ilustres, vocês não entenderam nada, eu não fiz crítica alguma, nem desenvolvi teste, só se eu fosse louca, Olavo de Carvalho não possui nada para ser refutado.

Devemos fazer igual como fazemos com um louco: ”você está certo”. E só assim mandá-lo direto para o manicômio.

”Ah, mas você não leu livro dele.” Será possível que ele mudou tanto o nível dos textos do site para o texto encontrado no livro? Mas aceito quem quiser me enviar o livro. Quem já leu Paulo Coelho, ahm, acho que não estranha nada.

Ah querem ver algo realmente sério? Eu vou tentar colocar uns textos e no final coloco o que o Olavo de Carvalho pensa sobre o mesmo. Se eu fizer um texto sobre Kant, coloco a explicação de Olavo para ”a substância” em Kant. E assim com outros filósofos.
E que venham os filósofos e filosofastros.

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Olavo de Carvalho

Março 1, 2008 · 58 Comentários

Há pouco tempo eu fiquei sabendo quem é Olavo de Carvalho. Olavo Carvalho como figura pública, diga-se de passagem. A primeira coisa que falaram foi: ‘‘ele é filósofo de Orkut’’. Confesso que achei estranho, mas poderia ser diferente no melhor sentido da palavra…

No entanto, a sensação que eu tive não foi boa e até agora não mudou. Tento explicar o porquê então.

Para começar, o que pensar sobre isto:

Nos anos 90 do fim do século passado, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho inaugurou uma nova fase na filosofia e no debate intelectual do Brasil. Ao lançar obras filosóficas como Aristóteles em Nova Perspectiva e O Jardim das Aflições . De Epicuro à Ressurreição de César , entre outras, imprimiu no pensamento filosófico brasileiro um rumo completamente diverso da dominação doutrinária impingida pelos autoproclamados pensadores que eram (e são), apenas, professores universitários de esquerda.

Na esfera pública, Olavo seguia (e segue), como já declarou, na tentativa de formar uma elite intelectual mediante aulas, cursos e divulgação de ideias pelos jornais, revistas e site ( www.olavodecarvalho.org e www.midiasemmascara.org )

Tudo bem, como já me avisaram, existe um abismo enorme entre a nossa velha Academia e o que se pode chamar de Comunidade Intelectual. Aliás, eu sempre soube, desde que eu comecei a freqüentar alguns encontros que eram conhecidos por possibilitar à Fortaleza um diálogo com intelectuais de diversas partes do mundo. E mais: pela disputa de egos entre os acadêmicos e os intelectuais. Soube disto quando eu falei a algum professor sobre o tal Simpósio e ele respondeu: ‘‘lá tem tudo, menos Filosofia’’.

Agora palavras do próprio ‘‘filósofo’’ em questão. Olavo de Carvalho diz:

Denomino paralaxe cognitiva o deslocamento, às vezes radical, entre o eixo da construção teórica de um pensador e o eixo da sua experiência humana real, tal como ele mesmo a relata ou tal como a conhecemos por outras fontes fidedignas. Raro e excepcional na Antiguidade e na Idade Média, esse deslocamento começa a aparecer com frequência cada vez mais notável a partir do século XVI, dando a algumas das filosofias modernas a aparência cómica de gesticulações sonambúlicas totalmente alheias ao ambiente real em que se desenvolvem. Um exemplo claro é a teoria de Kant sobre a incognoscibilidade da “coisa em si”. Se não conhecemos a substância das coisas materiais, mas somente a sua aparência fenoménica, que esperança podemos ter de atingir um dia, a partir de indícios materiais, isto é, letras impressas numa folha de papel, a substância da filosofia de Immanuel Kant? Certamente o filósofo de Koenigsberg não se contentaria se apreendêssemos somente a aparência fenoménica da sua filosofia, a qual filosofia, nesse sentido, é radicalmente incompatível com o acto de escrever livros – e olhem que Kant os escreveu em profusão. Por mais coerente que seja consigo mesma, a filosofia de Kant é incoerente com a sua própria existência de obra publicada.

É, nesse ponto realmente parei para pensar sobre a ligação entre o que Kant falou e o que é a substância da filosofia de Kant. Já pensou se alguém que não tem noções mínimas sobre filosofia lê isso? O que pode acontecer? Eu não sei o que pode acontecer, mas pode afirmar que boa coisa não vai ser. No mínimo, a criatura vai repetir erros tão grosseiros quanto o erro do Olavo de Carvalho que, ao tentar expressar sua opinião sobre a filosofia de Kant, beiram ao ridículo. Uma coisa é ler Kant sem tentar colocar idéias que não são do autor e outra coisa é ler Kant, não gostar e sair por aí falando de substância, fenômeno e ‘‘incompatibilidade’’ entre a vida e obra do autor. Kant, coitado, é um autor extremamente deturpado. Ele foi tão claro, mas cometeu o erro de ter uma obra tão rica, tão vasta que qualquer um acha-se no direito de falar da sua filosofia com um relativismo contemporâneo tão banal que pode ser visto como doentio. Espero que um dia ele (Olavo de Carvalho) reconheça algo que alguns pensadores – independente de serem ou não reconhecidos como intelectuais – chamaram atenção, entre eles, Gadamer ao proferir estas palavras: ‘‘Primeiramente, penso que aquele que filosofa tem de ter consciência da tensão entre suas próprias pretensões e a realidade na qual ele está”. Desculpe-me, senhor Olavo, por usar da tua mesma idéia, mas com uma pequena diferença: não ignoro a contribuição de grandes autores da história da Filosofia.

Noutro momento, o senhor Olavo de Carvalho afasta-se um pouco de argumentos grosseiros e provavelmente no que ele chama de aula, é expresso o seguinte:

Mais ingênua, portanto, do que a confiança dogmática do racionalismo clássico no poder cognoscitivo da razão, mais visionária que a pretensão dos místicos a um conhecimento experimental de Deus, é a confiança no poder humano de por em dúvida aqueles princípios que fundam a possibilidade mesma da dúvida. Mais ingênuo que qualquer dogmatismo é o princípio mesmo da filosofia crítica, que pretende estatuir dedutivamente limites contingentes e indutivamente limites necessários. Mais ingênuos do que nossos antepassados, que acreditavam na revelação e na razão, somos nós, que acreditamos em Descartes e em Kant, supondo que a negatividade do seu ponto de partida seja prova de modéstia metodológica, quando ela oculta, na verdade, a mais sobre-humana das pretensões: a pretensão de estabelecer limites absolutos ao conhecimento humano. Pretensão superior à do próprio Deus, que não cercou de grades o fruto proibido, mas o deixou ao alcance da curiosidade de Eva.

Antes de expressar o comentário acima, ele explicitou a filosofia de Kant de forma interessante, ou seja, se comportou como um professor deveria fazer. E mesmo quando ele comentou as suas desconfianças para com a filosofia de Kant, ele não usou de uma argumentação pobre, mas despertou a reflexão, o livre pensar. Alguém já havia me falado que o Olavo de Carvalho tem algumas boas explicações sobre Filosofia e eu não acredito que a pessoa que me falou esteja errada, mas existe uma diferença enorme entre o Olavo de Carvalho falando sobre a História da Filosofia e o Olavo de Carvalho filosofando.

Aqui :

Quando recoloquei em circulação neste país o estudo da arte de argumentar – da qual imediatamente os macaqueadores começaram então a falar no tom de quem tivesse longa experiência do assunto — , não esperava que a palavra “argumento” se transformasse no fetiche em que se transformou. É característico dos macacos intelectuais achar que tudo é uma questão de “ter argumentos”. Nem suspeitam que a argumentação é a parte mais baixa e rudimentar do treino filosófico. Dois argumentos perfeitamente iguais podem expressar idéias diferentes, uma verdadeira, a outra falsa, conforme a representação mental por trás de cada uma. Não existem “sentenças” verdadeiras e falsas: verdadeiro ou falso é o juízo por trás da sentença, o que você está efetivamente pensando – e ao pronunciar uma sentença aparentemente verdadeira você pode não estar pensando nada, ou então pensando uma falsidade completa que, por coincidência, se exprima com as mesmas palavras de um juízo verdadeiro.

 

 

E aqui:

 

Pior ainda quando as palavras que substituem o objeto ausente vêm associadas a valores emocionais e o fulano acha que ao defender estes últimos está “argumentando”. Infelizmente foi isso o que aconteceu na quase totalidade das discussões em que me meti com brasileiros, principalmente “intelectuais”. Argumentos genuínos – eventualmente falsos no confronto com a realidade, mas genuínos enquanto argumentos – só encontrei nos EUA e na Europa. No Brasil ninguém mais sabe o que é isso.

 

Quando Olavo de Carvalho fala: ‘‘Nem suspeitam que a argumentação é a parte mais baixa e rudimentar do treino filosófico. Dois argumentos perfeitamente iguais podem expressar idéias diferentes, uma verdadeira, a outra falsa, conforme a representação mental por trás de cada uma. Não existem “sentenças” verdadeiras e falsas: verdadeiro ou falso é o juízo por trás da sentença, o que você está efetivamente pensando – e ao pronunciar uma sentença aparentemente verdadeira você pode não estar pensando nada, ou então pensando uma falsidade completa que, por coincidência, se exprima com as mesmas palavras de um juízo verdadeiro’’, eu até entendo o que ele quer passar, muitas vezes também me coloco diante de velhas argumentações que não possuem validade alguma, mas que parecem expressar a verdade mais poderosa, simplesmente pela argumentação e técnica dos locutores. Mas sabemos que muitas vezes o desejo de expressar algo é diferente de expressar esse algo e não podemos confundir isto com ‘‘o que você está efetivamente pensando’’ e o fato de ‘‘pronunciar uma sentença aparentemente verdadeira’’. Compreendem? Espero que sim. Imaginem, as pessoas costumam interpretar de maneira equivocada o que é completamente claro, quanto mais exigir de uma pessoa a interpretação do que a outra está EFETIVAMENTE PENSANDO. Faça-me rir.

‘‘Argumentos genuínos – eventualmente falsos no confronto com a realidade, mas genuínos enquanto argumentos – só encontrei nos EUA e na Europa. No Brasil ninguém mais sabe o que é isso.’’ Talvez Olavo de Carvalho costuma encontrar pessoas que apreciam o genuíno, assim como ele aprecia. Mas penso que existem muitas pessoas que não apreciam apenas o ‘‘genuíno’’, mas o que é válido. Não sei se adianta muito sair por aí falando sobre pensamentos ousados e que, apesar de serem falsos no confronto com a realidade, podem mudar um pouco a cabeça de algumas pessoas e a relação destas com as coisas do mundo. Eu já vi boas exposições de outros ‘intelectuais estrangeiros’’, mas que não tem muito a ver com o desejo de ‘‘pensar algo novo (genuíno)’’, mas pensar algo realmente válido, coerente. No entanto, este caráter de pensar algo válido, coerente, não invalida o caráter genuíno. Pelo contrário. Eu, por exemplo, assisti uma conferência muito boa ano passado que falava da ‘‘necessidade’’ e ‘‘possibilidade’’ como conceitos filosóficos e o ataque do 21 de setembro nos EUA. Explico: a idéia era baseada no conhecimento que o governo tinha da situação e no conhecimento do ‘‘inevitável’’, mas que o governo fingia ignorar por culpa das relações políticas e o peso que uma afirmação sobre a situação iria ter. Mas o interessante é que o palestrante/conferencista foi testando as possibilidades de um ataque a partir de fatos e expondo, em contraponto, a necessidade de um ataque maior – necessidade aqui tomada como inevitável, ineliminável.

Então, não há como negar a Olavo de Carvalho’s influence on Brazilian media and politics, mas qual a garantia disto? Se ele tem influência na vida dos brasileiros é porque, de alguma forma, ele usa ferramentas acessíveis à maioria. Aliás, não só no Brasil. Vide as entrevistas que ele – com toda a sua boa base cultural – faz, por exemplo, àquelas que ele responde como se fosse um português. Todo mundo sabe que há uma diferença entre o português do Brasil e o português de Portugal, este muito mais erudito que aquele. Provavelmente, um artigo escrito nos moldes da língua dos nossos colonizadores possui bem mais visibilidade que um artigo escrito nos moldes da nossa língua. (Língua aqui tomada como diferente para deixar claro a diferença da fala, da escrita, etc.)

E o que é pior: já li também que ele ‘‘é uma das grandes figuras do nosso tempo, não só em língua portuguesa mas como a nível global.’’ E li isto de gente inteligente, o que me deixou surpresa.

Eu sei que poderia utilizar o seguinte:

Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no “inconsciente” das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido. O trabalho mais vigoroso nas ciências humanas do século XX, por exemplo, só aconteceu depois da existência do Instituto Warburg, fundado em Londres por um milionário judeu fugido da Alemanha, que juntou, durante 20 anos, as melhores cabeças do século em torno de uma coleção de manuscritos astrológicos e alquímicos. Sem este estudo, a comunidade acadêmica nunca teria qualquer possibilidade de compreensão real das civilizações antigas, (…)

Para afirmar o abismo que há entre mim e Olavo de Carvalho. Certamente me tornarei pó antes de compreender que sou burra porque nunca estudei astrologia. Agora entendi quando falam que ignorância é uma benção. Mas isto não vem ao caso. O que quero falar é que eu fico perplexa com gente defendendo Olavo de Carvalho. Uma vez alguém me falou que não existem ‘‘fases’’ em relação às pessoas e isto me pareceu coerente, pois mesmo quando a pessoa possui várias fases de entendimento no decorrer da vida, são essas fases que a definem, não dá para escolher uma delas e dizer que esta é a pessoa. Eu sei que posso morrer de vergonha algum dia por ter escrito este texto sobre o Olavo, por exemplo; mas não vou negar o que sou. Como costumo dizer: sou uma livre-pensadora, antes de tudo. Não posso ignorar as aberrações, digo, as figuras intelectuais influentes do meu tempo. Quando eu coloco que o Olavo de Carvalho é louco por negar o valor de Darwin sempre tem alguém para dizer: ‘‘é corrente a confusão entre técnica e ciência, não?’’. Sim, cara pálida, eu sei. Mas daí a separar o que Olavo de Carvalho falou um dia e o que ele fala hoje, é inaceitável para mim. E mesmo eu leio alguns artigos sobre novas leituras de Darwin (pós-darwinistas ou não) e percebo que não negam a influência de Darwin e isto não os impede de assumir novas posições quanto à ciência, inclusive posições totalmente contrárias. Eu falo tudo isso para deixar claro que não dá para fugir da tradição, do que já foi feito. E uma criatura que ignora isso está se comportando como um esquizofrênico, autista, ou algo do tipo. Certamente vem alguém me dizer: ‘‘ah, mas você não parece cética’’. Eu respondo com: sou cética, não idiota. Desconfio de toda e qualquer espécie de regra, mas o indivíduo que torna públicas informações acerca do que não sabe ou do que finge não saber é como um palhaço que se diverte mais que os seus espectadores.

Então se alguém (isto vale também para Olavo de Carvalho) falasse para mim: “meninos de ginásio” (como o que ele – ou outro se passando por ele – falou para o Eli), eu diria: isto é o máximo que você consegue falar sobre mim, sim? Ou citaria o que falaram de forma bem melhor:

Henrique Sobreira, professor da UERJ, fez a maior gozação: “Depois de décadas ‘dormindo na caixa’, Olavo de Carvalho, finalmente, ‘saiu do armário’. A comunidade GLS, que suportou anos a fio o seu destilado preconceito, lhe dá uma solene ‘beijoca’ de boas vindas ao Clube cor-de-rosa”. Ele recomendou que Olavo lesse vários textos do filósofo alemão Theodor Adorno, nos quais analisa o conceito de “educação para a dureza”, próprio do facismo. Gilberto Moraes, outro professor da UERJ, acredita que “Olavo nunca esteve diante de uma arma, passível de tomar um tiro de um bandido”.

Eu posso ter bem menos décadas que o senhor Olavo de Carvalho, mas isto não me impede de falar sobre uma figura que tem um numeroso público e de várias áreas, figura essa tratada como professor, inclusive. Se todo professor fosse tão defendido como Olavo de Carvalho é, a profissão de educador seria mais reconhecida. Mas aí encontra-se o problema, os alunos do Olavo de Carvalho não encontram outra realidade além da realidade que o professor indica/aponta. Tente discordar de 1/3 de algum texto que você será esmagado pelo peso não intelectual, mas do mesmo nível provocativo do professor (com direito a palavrões e tudo!), pois eles aprenderam assim.

Agora me respondam vocês: são filósofos e intelectuais como Olavo de Carvalho que o nosso tempo está formando? Se sim, por favor, apontem para o desconhecido, apontem um filósofo africano, um filósofo asiático, pois de filósofos/intelectuais brasileiros e/ou filósofos/intelectuais que possuem influência global, eu quero distância. Isto só comprova que a Mídia, com ou sem máscara, só nos apresenta informações soltas e nada de conhecimento. Eu neste texto só poderia fazer o mesmo, coletar informações soltas, pois conhecimento não pôde ser encontrado, muito menos produzido, pelo menos não do que eu li. Deve ser porque eu não estudei astrologia (ops, escapou!).

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Pequenas observações

Fevereiro 26, 2008 · 7 Comentários

Não suportei, tenho que falar.

Parece que atualmente existem vários tipos de blogs, dá-lhe inclusão digital. Mas o que me chamou atenção é o seguinte:

há, independente do tempo, dois tipos de blogueiros, os que são bastante conhecidos (ou não) por suas cabeças pensantes e ‘‘melhor estilo, melhores opiniões, melhores referências e melhores dignidades’’ (ufa!)…

em contraponto aos primeiros, existem os menos conhecidos blogueiros que são cabeças pensantes mas não possuem os atributos dos blogueiros citados anteriormente.

Os blogueiros do ‘‘primeiro tipo’’ moderam todos os comentários, geralmente não respondem e prezam por comentários inteligentes e dignos dos posts, eu vejo o senhor Luís Guilherme Fernandes Pereira e o senhor Julio Lemos como bons exemplos.

Já os blogueiros do ‘‘segundo tipo’’ não se preocupam tanto com os comentários, respondem (aos mesmos) independente da ‘‘qualidade’’ e do nível intelectual dos leitores. Como exemplo eu cito dois do Brasil, o senhor Hermenauta e o senhor Jorge e dois de um pouco mais longe, o senhor Orlando e o senhor João Ventura.

Mas não esqueçam, é só a nível de observação. :)

p.s.: moral da história: a filósofa que vos fala prefere duas palavrinhas (humildade e honestidade intelectual) à qualquer aparência, mesmo que seja observação - já que não tenho condições de julgar nenhum, pois estou aprendendo a blogar - não pode ser descartada.

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Entrevista com Mário Ferreira dos Santos

Fevereiro 26, 2008 · Não Há Comentários

O Jorge (não o Jorge da plataforma WordPress, mas o Jorge com quem discuto - constantemente – sobre filosofia) me enviou este link:
O Teocrata: Entrevista com Mário Ferreira dos Santos
Gostei muito do texto e não quero perder, esquecer ou ignorar as idéias do mesmo. Inclusive, posso divulgar. Então aí está:

Entrevista com Mário Ferreira dos Santos

Retirado de http://www.caiubi.com.br/marioferreira/auto_retrato.htm

LADUSÃNS, S. Rumos da filosofia atual no Brasil, São Paulo, Loyola, 1976, pp. 407-428.

O livro do padre Stanislavs Ladusãns reúne uma série de enquetes de catorze perguntas feita a diversos filósofos brasileiros. As três primeiras são de caráter pessoal. As demais, reproduzidas aqui, enfocam temas filosóficos.

Missão da Filosofia na vida cultural brasileira hodierna

Posso colocar-me na seguinte posição: nós, brasileiros, por vivermos materialmente o universal humano, por não termos compromissos históricos que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tampouco compromissos filosóficos, somos um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, uma Filosofia que corresponda ao verdadeiro sentido com que ela foi criada desde o inicio.

Parto da posição pitagórica: Pitágoras, diz-se, afirmou que era um amante da Sabedoria (sophia), da suprema Sabedoria, que cointuímos com a própria Divindade. Este afã de alcançá-la, os esforços para atingi-la, os caminhos que percorremos para obter essa suprema instrução (daí chamá-la de Mathesis Megiste, que é a suprema instrução), todo esse afanar é propriamente a Filosofia.

Assim, posso admitir que há vários caminhos, embora só haja um caminho real. Como fundamentava Pitágoras, repetido depois por Aristóteles, que a única autoridade na Filosofia é a demonstração, sendo que esta deve ser apodítica, e, se possível, com juízos necessários e até exclusivos, a Filosofia construída deste modo só pode ser uma: positiva e necessariamente concreta, que é a posição que tomo aqui.

Podemos viver o universal, no sentido puramente quantitativo, os modos de ver e de sentir dos diversos povos, mas não podemos permanecer na situação de ser um povo que recebe todas as idéias vindas de todas as partes, que não possa encontrar um caminho para si mesmo; temos de criar este caminho.

A minha luta é esta, dar solução aos inúmeros problemas vitais brasileiros da atualidade, porque a heterogeneidade de idéias e posições facilita a de soluções, das quais muitas não são adequadas às necessidades do Brasil. O tema é vasto e exigiria um trabalho especial.

Que fazer para que a Filosofia atinja as grandes massas populares e a juventude brasileira?

Fazer a Filosofia atingir as grandes massas populares será em primeiro lugar, obra que se cingirá a descê-la ao baixo grau de cultura de nossas massas populares. Precisamos estudar o que devemos fazer para erguê-las até à Filosofia, o que só poderá ser feito através de um desenvolvimento da cultura nacional – em linhas distintas das atuais, que tendam à Filosofia Positiva e não à Filosofia negativista e niilista que penetra em nossas escolas.

Quanto à juventude brasileira, este é o mais grave de nossos problemas: somos um país constituído de jovens, que formam a sua quase totalidade. Dado o baixo grau de cultura que temos, nossos estudantes passam a formar uma elite intelectual, o que demonstra a inferioridade em que nos encontramos.

Na História, a juventude sempre é o que decorre da sua própria natureza, apresentando aspectos positivos e negativos. Positivos, pela sua capacidade de ação e de idealismo; mas negativos, pela sua irreflexão, pelo seu despreparo e apressamento, que a leva a cair, facilmente, nas malhas dos grandes agitadores e a servir aos interesses de demagogos e políticos. Em todas as épocas da humanidade, uma parte da juventude mais ativa tendeu à luta a favor das más causas, facilitando-as.

Foram jovens que destruíram o Instituto Pitagórico, condenaram Sócrates, perseguiram Anaximandro, Aristóteles, assassinaram Hipátia de Alexandria e perseguiram Santo Alberto, S. Tomás de Aquino, S. Boaventura, quando mestres na Universidade de Paris; que uivavam pelas ruas pedindo a cabeça de Dante, de Savonarola, de Giordano Bruno; que acusavam Pasteur de “charlatão” e atiravam pedras em Einstein. Esses jovens são ativos, eficientes na sua parte destrutiva. Mas há também uma juventude construtiva.

Então, o que nos cabe fazer é orientar a juventude brasileira, dar-lhe suficiente sabedoria: clara, positiva, concreta, de modo a imunizá-la contra as tendências niilistas, para que possa pôr a sua capacidade de ação e de idealismo em algo concreto que beneficie o país. Fora disso, nada dará resultado.

Quais são as correntes filosóficas que a reflexão filosófica deve levar em conta hoje?

Propriamente, julgamos que todas, porque encontramos hoje, na reflexão filosófica, a restauração ou o ressurgimento de velhos erros já refutados há séculos e milênios, que passam por inovações extraordinárias para aqueles que ignoram as aquisições do passado. É necessário, assim, revisar tudo, para mostrar que muitas novidades atuais nada mais são que velhos erros já refutados, travestidos de “verdades superantes”.

As relações entre ciência e filosofia

Como a pergunta exigiria uma análise longa, sintetizar aqui o que penso, torna-se, para mim, um trabalho mais difícil do que expor as grandes contribuições que a ciência traz para as novas especulações filosóficas.

Não que esta venha modificar as linhas mestras da Filosofia Positiva e Concreta; veio, ao contrário, robustecê-las, mas trouxe contribuições que permitiram abrir campo não só para novas análises, como também para melhor colocação de outros problemas, além de uma revisão da Metodologia, sobretudo na parte da Dialética Concreta.

Trata-se da Dialética que possa de melhor modo aplicar-se à análise especulativa, para que ela não se torne meramente abstrata e sem correspondência com a realidade concreta. Basta que salientemos três pontos importantíssimos da ciência moderna. Primeiro, as pesquisas em torno da estrutura da matéria sensível, que levaram a ciência a penetrar na constituição da matéria, afastando-se o conceito de matéria do século dezenove.

Temos, assim, uma visão muito mais profunda e ampla do que aquela que os filósofos anteriores possuíam, também a Filosofia Positiva de séculos anteriores, aproximando-se a passos gigantescos da concepção que os pitagóricos haviam apresentado, e que fora considerada por muitos como extravagante, tornou-se muito mais compreensível.

Naturalmente, se alguém considera que o número é apenas o da matemática vulgar, o da extensão, da quantidade, ou o esquema da participação quantitativa, é lógico que a definição pitagórica de que as coisas são números passa a ter um sentido demasiadamente brutal e inaceitável.

Mas no momento que se compreender que número não é apenas isso, mas todo o esquema de participação de qualquer espécie de unidade, porque é a manifestação da unidade sob todos os seus aspectos e, portanto, sob todas as formas manifestativas em que se exija o numeroso e, portanto, participado, participante e logos da participação e que, segundo o logos, existem tantos números quantos logoi de participação, já muda completamente o sentido e então poder-se-á compreender que, segundo todos os possíveis aspectos em que se possa tomar a unidade, podemos construir matemáticas.

A ciência moderna, graças à penetração da Matemática, de início na parte quantitativa e depois no qualitativo – como se viu nas graduações – e nos relacionais – como se vê nos funtores – caminha hoje, inevitavelmente, para uma penetração cada vez maior no caminho que já fora percorrido pelos antigos pitagóricos.

O progresso científico processou-se e firmou-se na medida em que a ciência se matematizou; a ciência, por outro lado, separou-se da Filosofia, não devido a essa matematização, mas em virtude dos filósofos, que não compreenderam bem essa matematização, que deveria ter permanecido no campo da Filosofia Positiva, se realmente fosse concreta.

Por isso, o aparente abismo hodierno entre Filosofia e ciência pode perfeitamente ser ultrapassado, flanqueado pela Filosofia Concreta; é o que estamos fazendo com as nossas obras, apesar de muitos julgarem ser impossível a um brasileiro tentar fazê-lo.

Segundo, ainda no campo da pesquisa da estrutura da matéria, a descoberta das tensões, sobre as quais os físicos modernos, estarrecidos ante a sua realidade, procuram escamoteá-la, sem poder enfrentar, devidamente, a implicância que a aceitação desta realidade exigiria, e que os levaria a uma especulação filosófica para a qual não estão preparados.

A terceira contribuição importante é a referente à genética, que dá novos subsídios para a melhor compreensão do homem, para novos estudos antropológicos e uma nova reflexão em torno da significação do ser humano.

Poderíamos citar inúmeros outros aspectos, que também são imprescindíveis para a reflexão filosófica. Aliás, são tantos, que não caberiam, naturalmente, no espaço que temos para responder.

O que queremos apenas salientar é que devemos compreender que, das causas às leis e aos princípios de cada ciência, podemos alcançar uma sabedoria que está acima de toda ciência, uma sabedoria como a estudaram os grandes pensadores de todos os tempos, que é a “Décima Ciência” dos antigos, de que nos falava São Boaventura.

Essa Ciência, cabe-nos construí-la; será a metalinguagem do homem, unindo todos os especialistas numa visão global. Essa construção é a nossa grande tarefa atual, para que possamos aproveitar as grandes contribuições da ciência na elaboração de uma visão filosófica mais completa, mais perfeita e mais atuante apara um melhor futuro da humanidade.

Assim abriremos campo para novas análises, não mais as que colocavam mal as questões, de modo a torná-las, por isso mesmo, insolúveis e estéreis suas disputas, mas lançando novas disputas num campo mais fértil, mais criador, sob aspectos mais seguros, que poderão abrir ao homem novas perspectivas, com dados extraordinários, em benefício da cultura do homem de amanhã.

É diante deste horizonte, ante esta aurora que se anuncia, que me anima o que tenho realizado, muito embora eu não seja compreendido por muitos daqueles que se dizem amantes dessa sofia, a Matese, a sabedoria, a intuição sapiencial.

Posso, agora, completar a minha resposta ao item IV, dando, assim, o sentido da reflexão filosófica que se pode atribuir ao pensamento brasileiro, se ele quiser ser genuinamente filosófico.

Todos aqueles que, no Brasil, revelaram que possuíam mente filosófica – e não foram muito numerosos, porém brilhantes – tenderam sempre para um pensamento de caráter sintético, isto é, não ficaram totalmente presos às correntes filosóficas européias e dependentes delas. Sempre houve, entre nós, o desejo de abarcar o universal e esta característica é naturalmente justa e própria de um povo que vive em si mesmo este universal.

Por isso, o Brasil é, dos países atualmente existentes, mais capacitado para uma Filosofia universalizante ou, pelo menos, para uma nova linguagem filosófica, capaz de unir o pensamento que divergiu tão profundamente no campo já esgotado do pensamento europeu. Aqueles que não pensam assim, que não admitem essa possibilidade para nós, que continuem vivendo o seu modo de pensar. Nós preferimos, porém, divergir.

Colaboração da Filosofia para humanizar a civilização

Esse item pode-se dividir em três: 1º) a humanização da civilização atual; 2 ) a evidenciação do valor da pessoa humana e 3º) a contribuição para a paz interior e felicidade do homem.

Primeiro: hoje, sobretudo no mundo livre, graças ao surgimento de um desejo ecumênico de aproximação dos homens, a humanização da civilização pode ser obtida – em parte, naturalmente – pela colaboração da Filosofia, pela revisão honesta de todos os grandes autores do passado, que foram caricaturizados, falsificados e apresentados num sentido que não é realmente o da sua Filosofia.

Poderíamos citar aqui, desde os pitagóricos até o século passado, autores que precisam ser revisados e reestruturados, para evitar-se aquelas “fables convenues”, aquelas mentiras históricas, os mitos e as interpretações falsas que se fazem da sua obra, com o simples intuito de denegri-los ou de favorecer outras posições.

Devemos tomar a seguinte posição: procurando primeiro tudo o que nos une, depois pensemos em estudar o que nos separa, para ver se, o que nos separa, pode sofrer modificações ou acomodações, que permitam que aquilo que nos une, fomente a humanização da própria civilização. Daí decorreria, pois, inevitavelmente, a segunda parte, sobre o valor da pessoa humana que, sem dúvida, sofreu, neste século, devido ao desenvolvimento dos totalitarismos, uma afronta à sua dignidade.

De todos os lados surge este tema, que pode e deve ser reestruturado em termos positivos e concretos. Finalmente, resultaria, então, a terceira parte, porque a paz, a tranqüilidade interior, a serenidade do espírito só podem ser alcançadas quando a mente assenta plenamente na Sabedoria, alcançando aquelas verdades, que estão ao nosso alcance e que são o fundamento de nossa verdadeira felicidade.

Seguimos em suma, o preceito de Pitágoras: “Ama a verdade até o martírio; não ames, porém, a verdade até à intolerância”! Procurando o que nos une realmente com todas as outras correntes e posições filosóficas, podemos abrir caminho para uma compreensão nos aspectos em que encontramos diferenças, que, muitas vezes, são apenas acidentais e não aptas a justificar uma separação profunda.

Esse já seria um caminho de maior aproximação entre os homens, porque, na medida em que nos dedicamos à leitura dos textos, vamos compreendendo a ação nefasta dos intermediários.

Sabemos que, na Filosofia e temos milhares de exemplos para citar, os intermediários, os discípulos, em regra geral, falsificam a obra dos mestres segundo determinados interesses. Os adversários caricaturizam segundo outros interesses, e o resultado é a deformação total do verdadeiro pensamento do autor.

A obra apresentada de segunda, terceira ou quarta mão está completamente desfigurada, o que permite ao autor um ataque fácil, pois não é difícil destruir caricaturas. Há casos, na Filosofia, em que autores tiveram suas obras refutadas antes de as terem publicado, eram, pois, obras conhecidas só pelo autor.

Muitos livros meus foram “refutados” antes de serem publicado, pelo simples fato de eu pretender tratar de tal ou qual matéria. Sem nem ao menos saberem qual a minha verdadeira posição num assunto, já haviam adversários para refutá-los. Não em público, porque isso eles não têm coragem de fazer, mas nos “corredores”.

Filosofia nacional e o pensamento filosófico estrangeiro

Quando hoje se visita Portugal e se vê qual a atitude predominante neste país em relação ao seu patrimônio filosófico, espanta verificar a completa ignorância sobre o que de grande já se realizou na Filosofia Portuguesa.

Atualmente, nada se estuda, nas escolas, da Filosofia Portuguesa dos séculos XV, XVI e XVII. Parece que Portugal nada realizou; desconhece-se que, por quase dois séculos, a Filosofia Portuguesa imperou no mundo.

Desconhecem-se autores como: Petrus Hispano; Antonio a Santo Domínico,.O.P.: Francisco Suárez, S.J., que embora espanhol, viveu grande parte da sua vida intelectual em Portugal, onde adquiriu o seu saber, além dos outros dois Francisco Soares, lusitanos; Martim de Ledesma, espanhol de origem, cuja formação intelectual realizou-se igualmente em Portugal; Francisco a Cristo, O.S.A., e Egídio da Apresentação, .O.S.A, Andréias de Almada, S.J. ; Ludovico de Sotto Mairo, O.P.; Gabriel da Costa; Hector Pinto, O S.; Hieron; Francisco da Fonseca, O.E.S.A; Manoel Tavares, da Ordem carmelitana e Francisco Carreiro, da Ordem cisterciense; Jorge O Serrão, S.J.; Ferdnando Peres, embora nascido em Córdova, foi outro que adquiriu a sua cultura em Portugal; Ludovico de Molina, S.J., nascido na Espanha, viveu, contudo, a maior parte do seu tempo em Portugal, onde estudou e foi discípulo de Pedro da Fonseca, S.J., o Aristóteles português; Petrus Luís, S.J.; Antônio Carvalho, S.J.; Baltazar Álvares, S.J.; Hieronimus Fernandes, S.J.; Gaspar Gonçalves, S.J.; Ludovicus de Cerqueira, S.J.; Gaspar Vaz, S.J.; Diogo Alves, S.J.; Francisco de Gouvêa, S.J.; Ferdinando Rebelo, S.J.; Gaspar Gomes, S.J.; Benedictus Pereira, S.J.; Sebastião de Couto, S.J.; Blásio Viegas, S.J.; Emanuel de Góis, S.J.; Cosmas de Magalhães, S.J.; Pedro da Orta, S.J.; João de São Tomás, O.P., para citar apenas alguns, Portugal nos deu esta floração de filósofos, afora os mais conhecidos, como Sanches e outros, porque correspondem à atual maneira de filosofar no mundo moderno.

Pergunta-se: Pode-se falar numa Filosofia de Portugal ou apenas numa Filosofia em Portugal?

Respondo: Pode-se falar, sim, numa Filosofia de Portugal e também numa Filosofia em Portugal.

Nós, brasileiros, contudo, por um espírito de colonialismo passivo, que nos domina até hoje, não cremos em nós mesmos. Só damos valor àquilo que tem origem estrangeira, e não seja de Portugal, porque também esta procedência não goza de nossa admiração. É natural, pois, que falar numa Filosofia Nacional cause manifestações de completa descrença.

Não acreditar que ela existe, nem tampouco que possa surgir, é atitude geral. Ainda hoje, “famosos professores de Filosofia” em Portugal dizem que é impossível criar-se uma Filosofia autóctone naquele país.

Para o português, o que vale é: “Penso, logo não existo” ou “Existo, logo não penso”. Podemos dizer que existe uma Filosofia no Brasil, mas se quiséssemos realmente falar numa Filosofia do Brasil, tal afirmação exigiria exame. Não conhecemos obra de criação propriamente peculiar. Se estamos tentando realizar algo nesse sentido, não podemos afirmar, por motivos óbvios, que o seja.

Podemos dizer que, pela nossa completa libertação de um passado metafísico, filosófico, histórico, que pese sobre nós e entrave as nossas possibilidades de ação, estamos em condições de criar uma Filosofia Ecumênica, uma Filosofia que seja realmente a Filosofia, por entre os muitos modos de filosofar.

A heterogeneidade nas modalidades de filosofar surge nos períodos de predominância do empresário utilitário no contexto de uma cultura. Quando este predomina, prevalece a moda que penetra em todos os setores: na Filosofia, na Arte etc., como acontece no mundo atual.

Esta variação tremenda de idéias, as quais surgem de todos os lados, não revela nenhuma pujança; é ao contrário, um índice de fraqueza, como a do período final da cultura grega e alexandrina. A Filosofia Positiva (fundada na positividade do ser, que alcança a perenidade, porque atinge as leis eternas) e Concreta, precisamente, porque, captando estas leis, relaciona todos os matizes de todos os aspectos formais – para dar-lhes uma unidade superior- é necessariamente Concreta, embora não no sentido vulgar do termo.

A Ciência, felizmente, conseguiu libertar-se da moda, como o fez a Matemática; por isso, como se construiu uma Matemática, uma Ciência, também se pode construir uma Filosofia.

Em que o pensamento brasileiro pode beneficiar-se do pensamento filosófico estrangeiro; reunindo o que há de positivo em todas as grandes realizações, provenham de onde provierem, construindo, depois, uma nova concreção e oferecendo-a ao mundo.

Esta é a única possibilidade que nos cabe e que estamos em condições de realizar, muito embora a maioria de nossos intelectuais não creia nisto e negue, terminantemente, que tal seja alcançável por nós, açulando-se com sanha contra quem tentar fazê-lo.

Deve abrir-se a reflexão filosófica para uma visão transcendental da realidade, na perspectiva das razões metafísicas?

Sem uma visão transcendental da realidade não pode haver Filosofia, porque se esta se distingue da Ciência por dedicar-se esta ao estudo das causas próximas e a Filosofia às causas primeiras e últimas, fatalmente esta deverá ter uma visão transcendental da realidade ou, pelo menos, tocá-la, abordá-la.

Ora, além das causas primeiras e últimas, temos de estudar os princípios, objeto fundamental da Mathesis Megiste – dos pitagóricos que chamamos Matese em português – cuja elaboração estou realizando em obra especial, que é a Axiomática baseada em Boécio. É a Décima ciência dos pitagóricos, a Contemplação sapiencial de São Boaventura, a Sapiência de Santo Tomás etc.

Esses princípios são matéria que constitui, propriamente, o que em todos os ciclos culturais, em todas as altas religiões se chama de Sabedoria: Sabedoria infusa ou Sabedoria em que o homem participa da Divindade, ou ainda a própria Sabedoria divina que o homem pode abordar, tocar e na qual consegue penetrar. São temas que, naturalmente, exigem discussões sobre os seus principais aspectos.

Mas o que é inegável, e não poderá deixar de abranger nenhuma visão filosófica em profundidade, é que há princípios eternos, leis eternas, que dominam todas as coisas, as quais não devem ser confundidas com as leis naturais nem com as da ciência. Este estudo levará, inevitavelmente, a uma visão transcendental da realidade, e sem ele não se faz Filosofia em profundidade, mas apenas de superfície.

Esta tendência, a de uma Filosofia que não ultrapassa a imanência da esquemática – que o homem pode construir apenas dentro de sua experiência mais vulgar – predomina no mundo moderno.

Qual é a íntima conexão entre a posição gnosiológica, metafísica e ética; entre a teoria e a prática?

Parece-nos que aqui há duas perguntas: lª) a que interroga sobre íntima conexão entre a posição gnosiológica, metafísica e ética e 2ª) a íntima conexão entre a teoria e a prática.

Responderei à primeira, depois à outra. As dificuldades no campo da Gnosiologia, da Metafísica, inclusive no da Ética, surgem naquele filosofar que coloca o homem quase como um ser estranho ante o universo, o qual é impermeável para ele. Coloca, assim o homem numa situação de ser completamente ilhado, bloqueado, sem a menor possibilidade de penetração mais profunda.

As conseqüências deste pensamento pessimista, negativista, são as seguintes: não é possível, com os nossos meios cognoscitivos, alcançar o que nos transcende e dar, também à própria Ética, uma visão transcendental. Desta forma existe a tendência a considerar todo o filosofar do homem apenas como uma obra humana -–restringida, portanto, aos limites de nossa experiência – fundamentada nos dados de nossos sentidos e meios limitados de conhecimento.

Chega-se, ademais, à conclusão de que todo e qualquer esquema que construamos jamais corresponde à realidade que nos ultrapassa. Estamos em pleno agnosticismo, ceticismo, pessimismo, ficcionismo, pragmatismo, materialismo, niilismo, “desesperismo”; são conseqüências que surgiram do filosofar moderno.

Portanto, inegavelmente, a reflexão filosófica deve abrir-se para uma visão transcendental da realidade, sob pena de nos perdermos em armadilhas feitas por nós mesmos, afirmando uma deficiência que, na verdade, não temos.

A segunda parte da pergunta é importantíssima. Surgem nos gregos as discussões em torno da teoria e da prática, da Filosofia e da Ciência Especulativa, da Filosofia e da Ciência prática.

Avassalaram a atenção dos filósofos de maior responsabilidade intelectual e, apesar dos grandes trabalhos realizados – que fazem a nítida distinção entre a teoria e prática – que chegaram até nós, a maior parte deles é completamente desconhecida para aqueles que não tem nenhuma ligação com a Filosofia Positiva e Concreta, a qual pertence aos grandes ciclos culturais da humanidade.

Resultado: estamos hoje vivendo uma completa confusão entre teoria e prática. Estabelece-se determinadas proposições teóricas, julgando-se que elas são perfeitamente práticas e vice-versa. Algumas proposições, extraídas exclusivamente da prática, passam a constituir verdadeiros axiomas teóricos. O resultado é que vivemos hoje num mundo de utopias e quimeras; como conseqüência, há desilusões, cujo resultado final é desespero.

A Filosofia é uma ciência objetiva ou uma produção pessoal, puramente subjetiva, do pensamento?

Aqui está um ponto de partida, verdadeiro divisor de águas. Desde o momento em que nos coloquemos na posição de quem pensa que a Filosofia é mera produção pessoal, puramente subjetiva do pensador, pomos aquela no campo da Estética.

Mas se admitimos que a Filosofia é uma ciência objetiva, isto é, uma busca humana da sophia suprema, que nos ultrapassa e transcende, ela adquire uma feição completamente distinta. Em todos os ciclos culturais, a Filosofia Positiva e Concreta é uma ciência objetiva. Em todos os momentos de decadência ou refluxo, que são vários, ela se torna puramente subjetiva.

A Filosofia Moderna está caindo no subjetivismo. Vimos até a tendência de um Heisenberg querendo colocar a própria Ciência no subjetivismo, pela sua teoria da indeterminação. Há necessidade de esclarecer-se, sobretudo para aqueles que querem fazer Filosofia, o seguinte: se desejam fazer obra puramente subjetiva, dediquem-se à Estética e deixem em paz a Filosofia, assim como se pede aos positivistas que façam Ciência e não Filosofia, porque são coisas que devem ser distinguidas, cuja confusão só atrasa o progresso intelectual da humanidade.

Filosofia exige demonstração e não meras asserções. Ademais, não devemos confundir filósofo com pensador que também trata de Filosofia – e muito menos ainda com professor de Filosofia. Em nossa época, o professor já se julga “dono” da Filosofia e, neste caso, há o perigo de se pensar que o fim é uma Filosofia de professores para professores de Filosofia.

Que pensar sobre o problema do ateísmo contemporâneo?

Este tema é de uma vastidão tremenda, já que o ateísmo contemporâneo não surge a rigor de uma especulação filosófica, mas sim, de certas decepções de caráter mais ético do que filosófico. A meu ver, o ateísmo não surge, propriamente, em torno do Deus Uno e de seus atributos, mas, em torno dos atributos do Deus Treino, ou Deus pessoal ou dos atributos morais de Deus.

Não conheço nenhum trabalho, de nenhum ateísta, que se limite a atacar, especificamente, o Deus Uno. Conheço agnósticos e cépticos, mas não ateístas que tomem uma posição definitiva, negadora da possibilidade de um Ser Supremo. O ateísmo é sempre o produto de uma má colocação do problema de Deus.

Como “na Filosofia não há questões insolúveis, mas apenas mal colocadas”, o ateísmo moderno parece uma questão insolúvel, porque é mal colocada. Todas as ocasiões em que tive a oportunidade de me encontrar com ateístas, bastou-me pedir-lhes que descrevessem o que entendiam por Deus, para, nessa descrição, verificar quais as razões de seu ateísmo.

Foi-me fácil afastá-los de sua posição e colocá-los na aceitação de um Ser Supremo, o que é, para nós cristãos, o ponto de partida para uma total recuperação.

Em que sentido a reflexão filosófica pode ter tonalidade cristã? Pode o cristianismo prestar benefícios ao filósofo?

Eis também outra questão que, bem colocada, é de solução fácil. O ponto de partida está em saber o que se entende por tonalidade cristã. Se considerarmos Cristo sob um aspecto, no qual podemos encontrar-nos quase todos, isto é, representando Ele o que o homem tem de mais alto na sua forma perfectiva, caminhando para a Divindade – ou mesmo, neste sentido, reaproximando-se do Ser Supremo – podemos afirmar que a reflexão filosófica não pode deixar de ter uma tonalidade cristã.

Não pode haver uma reflexão verdadeiramente filosófica que não erga o homem do menos para o mais. Portanto, o Cristianismo presta e sempre prestou benefícios ao filósofo, razão pela qual a Filosofia teve o seu maior desenvolvimento sob a égide do Cristianismo. Será também apenas através da concepção cristã, que se poderá realizar uma Filosofia superior capaz de unir os homens e fazê-los se compreenderem, pois Cristo representa, no homem, tudo quanto ele tem de mais elevado.

Já dizia Pitágoras que a verdadeira piedade – aliás, a eusébeia – era a justa e nobre veneração da Divindade, consistindo aquela na prática de nossos atos perfectivos superiores. Aproximando-nos, pois, de Deus na medida em que praticamos, de modo mais perfeito, os nossos atos. Em suma: a eusébeia (a verdadeira piedade), para os pitagóricos, é a assemelhação a Deus.

Este conceito não é exclusivo dos pitagóricos, mas de revelação universal, de todos os ciclos culturais. A verdadeira Filosofia caminha paralela à Religião, porque, se esta é o caminho para elevar o homem a Deus pelas ações, aquela é o caminho para elevar o homem – pela meditação, pelo pensamento, pela pesquisa, pela especulação – também, a Deus. Por isso, a Religião pertence à vida prática e a Filosofia sobretudo à vida especulativa – o que não impede que a Filosofia especule também sobre a vida prática e nela atue dentro das normas desta.

Isto corresponde à vontade, ao entendimento humano na sua ação em busca do bem; mas a Filosofia é a vontade e a especulação em busca da verdade. Consequentemente, o homem, à medida que especula pela verdade, aproxima-se do Ser Supremo e à proporção que busca o seu justo bem aproxima-se de Deus.

Esta é a razão por que o divórcio entre Filosofia e Religião – que se procurou fazer no mundo ocidental como também já se fez em outros ciclos culturais, em situações correspondentes a esta – é apenas uma covardia, a ser substituída por uma atitude heróica, enfrentando, mostrando os defeitos dessa posição e propondo os verdadeiros caminhos de ascensão.

Visto sob este aspecto, o Cristianismo é universal, porque pertence a todos os ciclos culturais. Ele foi o pensamento verdadeiro mais profundo de todos os ciclos culturais, sendo, por isso, inseparável da religião do homem nos seus aspectos perfectivos. É o homem enquanto Vontade, Entendimento e Amor, correspondendo, na concepção católica, às Três Pessoas da Trindade.

Caminhando neste sentido, retiraremos o homem do pântano em que está afundado, do estado de desespero no qual imergiu, podendo tornar a oferecer-lhe uma nova perspectiva e esperança, que poderá solidificar uma fé verdadeira e robusta.

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Post do Rapha

Fevereiro 26, 2008 · 1 Comentário

 

Faço o mesmo que o Thiago Pininga fez!

Recomendo muito este post que o Rapha fez:

Profissional de filosofia? (meu discurso de formatura)

Só não gostei da posição dele sobre o Idealismo e também não gostei quando vi a citação do Olavo de Carvalho, mas é um ótimo texto.

 

 

 

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Filosofia na sala de aula

Fevereiro 26, 2008 · 2 Comentários

Eu tive algumas aulas angustiantes nesses dias e que me fizeram pensar sobre a condição dos que desejam lecionar no campo da filosofia.

A impressão que eu tenho é que existem dois grupos: um é formado por aqueles que passam a vida inteira para serem ‘‘reconhecidos’’ como fontes seguras de saber, enquanto o outro é formado por aqueles que conseguiram chegar ao mesmo patamar do primeiro grupo, mas ‘‘apadrinhados’’ por outros filósofos mais velhos e já reconhecidos. O primeiro grupo é formado por sofredores que se acostumaram com a escassez de livros nas bibliotecas públicas, mas que conseguiram aprender, com grande esforço, a produzir conhecimento e a divulgá-lo (o famoso movimento que Platão já havia falado sobre na obra A República: anábasis – obtenção de conhecimento, ascender; e katábasis – divulgar, repassar conhecimento, descender). O segundo grupo é formado pelos que não sofreram, sempre tiveram apoio dos outros já inseridos no círculo filosófico e nunca sentiram o peso de um erro pois, mesmo buscando da mesma forma que o primeiro grupo, nunca se importaram com o conhecimento, apenas com o sucesso em construírem suas monografias, dissertações e, se possível, defenderem suas teses.

As pessoas do primeiro grupo não ignoram o que os aspirantes a filósofos venham a falar, pois não esquecem que já foram ‘‘apenas estudantes’’ – ora, como poderiam esquecer o pior período de suas vidas, o mais angustiante (pausa para observação: daqui a pouco até o turismo sexual vai ser reconhecido como profissão, mas a atividade estudantil nunca chegará nem perto), as pessoas do primeiro grupo enxergam a relação professor-aluno como sendo produtiva, jamais iriam fazer chacota com as perguntas dos alunos, por mais imbecis que possam ser algumas vezes.

As pessoas do segundo grupo já não se importam com perguntas de alunos, com aspirações, divagações e muito menos com o diálogo. As pessoas do segundo grupo tomam a Filosofia como qualquer outra disciplina – detestável. Fizeram isto com a Biologia, com a Física, com a Matemática, por que a Filosofia seria a exceção? Mas o melhor não é isso, o melhor é quando elas acham que uns livros publicados os tornam invulneráveis a toda e qualquer argumentação ou crítica. Se prendem na tradição (se afogam seria mais apropriado) e na primeira oportunidade dizem: ‘‘você não está entendendo nada.’’

Isto escutado numa palestra é até interessante. Eu, pelo menos, ria demais do Ernst Tugendhat Tugendhatquando ele atacava os ‘‘nietzscheanos’’ ou qualquer um que desvirtuasse o tema principal da palestra. Mas em aula é brincadeira. No entanto, como eu sou uma pessoa doce e querida, NÃO DESISTO de perguntar única e exclusivamente pensando no que eu quero perguntar. Afinal, gostando ou não, eu preciso de ambos os grupos e não interessa o que eles fizeram ou deixaram de fazer para saberem o que eu quero saber.

Mas no final a gente sabe. Ah como sabe. Humildade intelectual não é para qualquer um, mas os que conquistam o respeito dos alunos com este pequeno detalhe…não precisam se preocupar. O que se ganha não se perde tão fácil. Não sei com outros assuntos, mas com conhecimento é assim. Mamãe diz: ‘‘o único bem que vou te deixar é o conhecimento’’. Mamãe se referiu à condição de possibilidade de obter conhecimento. É tudo tão difícil mãe, mas vou até o final.

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Mais Olavo de Carvalho

Fevereiro 25, 2008 · 10 Comentários

Não vi texto mais esclarecedor sobre Olavo de Carvalho. Encontrei aqui. Depois faço um texto sobre o Olavo de Carvalho. Aguardem. :)

TAQUI PRA TI
EDUCANDO PARA A BOIOLICE?
José Ribamar Bessa Freire
29/04/2007 - Diário do Amazonas

Peru, 1975. Dentro de um táxi, enfrento o trânsito caótico das ruas de Lima. O motorista realiza manobras ilegais e perigosas, correndo como um alucinado, furando sinais, xingando, entrando na contramão. Costura daqui, costura dali. Na Avenida La Marina, tenta ultrapassagem temerária pela direita. Coloco meu braço pra fora, abanando freneticamente a mão para avisar o outro carro que ia ser fechado. Contrariado, o taxista me repreende. Explico: só estou querendo ajudar. Ele liquida o assunto: - No hagas eso! Si no van a pensar que no soy macho.

O taxista estava convencido de que sinalizar era demonstrar medo e que dar uma fechada provava sua coragem e virilidade. Por isso, preferia arriscar mil vidas a ser considerado um ‘maricón’. Quando homens necessitam dirigir agressivamente para afirmar sua masculinidade é porque a sociedade está doente e as normas de convivência foram para o beleléu. Mais grave ainda quando alguém defende que é exatamente assim que os professores devem educar seus alunos: formando machos e não boiolas.

A pedagogia do taxista

Essa é a tese de Olavo de Carvalho em artigo ‘Educando para a boiolice’ no Diário do Comércio, no qual discute a responsabilidade pelo massacre ocorrido na Virginia Tech. Ele pergunta: “Por que ninguém atacou o coreano maluco enquanto ele recarregava sua pistola?” A resposta é contundente: por causa da “epidemia de frescura na escola”, que forma alunos “tímidos, fracotes e efeminados”. O autor usa depoimento de seu filho Pedro, que estudou um ano e meio na Virginia. O rapaz, falando por experiência própria, confirma: “É uma educação para boiolas”.

Não sabemos se Pedro, filho de peixe, foi bom aluno. Mas seu pai adverte que boiola - cujo equivalente em inglês é sissy - “não é necessariamente um gay”. Boiolice nada tem a ver com o sexo, é “uma covardia abjeta, um desfibramento da alma, uma pusilanimidade visceral que os educadores de hoje em dia consideram o suprassumo da perfeição moral. É a fórmula da pedagogia usada nas escolas públicas americanas”.

Se os jovens são obrigatoriamente efeminados é porque “passam o ano inteiro só aprendendo boiolice”, ensinada em “cada página dos manuais didáticos” e nas aulas. “Cada vez que um professor abre a boca em sala de aula, espalha mais um pouco desse entorpecente pedagógico nos cérebros infanto-juvenis”.

Contra tais princípios, o autor defende pedagogia similar a do taxista: “As escolas têm de ensinar os meninos a serem mais agressivos”. Justifica, afirmando que a bandidagem só ataca nas escolas porque sabe que os estudantes são boiolas. Propõe: “As escolas têm de planejar sua defesa e reagir com igual agressividade. O treinamento tem de ser tão intensivo e levado tão a sério quanto o assassino leva a sério sua missão de matar”.

A Escola do Carvalho

Segundo o autor, o modelo que transforma a sala de aula num campo de batalha deve ser implantado, no Brasil, cuja situação é ainda “mais desesperadora que a dos americanos” porque no nosso país “a boiolice está espalhada entre homens adultos, nas ruas, nas fábricas, nos escritórios e essa gente tem medo de armas até quando vistas pelo lado do cabo”. Faça o teste, leitor, para saber se você é boiola!

Fico imaginando o ‘treinamento intensivo’ nessa Escola do Carvalho. No currículo do Maternal, para aquecer as crianças, devem constar obrigatoriamente as disciplinas “Xingamentos e Palavrões” “Tapas, Bofetes e Mordidas” e “Pistolas de água”. No Ensino Fundamental seriam ministradas “Armas brancas” e depois “Introdução ao manejo de armas de fogo”, como pré-requisito para “Técnicas de Pontaria”, “Tiro ao alvo I e II” e “Explosivos e Granadas”.

O leitor amazonense, perplexo, se pergunta: “Mas, afinal, quem é Olavo de Carvalho no jogo do bicho?” A página pessoal do dito cujo na internet não economiza auto-elogios e afirma na maior cara-de-pau: “Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, SP, em 29 de abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros”. Eita ferro! Não é gozação não! Juro que está escrito assim. Qualquer leitor pode ir lá e conferir.
Ex-colunista do jornal O Globo, da revista Época e do diário Zero Hora, Olavo de Carvalho foi desligado, quando descobriram que ele não é aquilo que ele diz que é. Revoltado, escreveu: “Querem saber do que mais? O corte brutal do meu orçamento doméstico é, nas presentes condições, uma libertação. Vou mais é para Virginia Beach tomar banho de mar e participar da alegria nacional deste país hospitaleiro e generoso. O Globo que se dane”.

Comicidade intraduzível

O Globo não se danou, mas Olavo hoje mora em Richmond, na Virginia. No entanto, o visto de residência concedido pelo ‘país hospitaleiro’ não lhe permite exercer trabalho remunerado. Sua página na internet explica que é difícil os americanos entenderem seus ensaios eruditos, porque ele usa “a linguagem popular, incluindo muitos jogos de palavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis”, o que confere aos textos “uma profundidade surpreendente”.

A profundidade é discutível, mas quanto à comicidade, ele tem razão: ela é intraduzível até ao português. Por essa razão, Carvalho sobrevive ministrando cursos à distância de História da Filosofia para alunos no Brasil, escrevendo para o Jornal do Brasil e o Diário do Comércio e recebendo contribuição de admiradores, entre os quais estão militantes da Ação Integralista Brasileira, organização de extrema-direita.

Olavo de Carvalho parece que não perdoa o fato de ter ficado de fora da academia. Por isso, esculhamba as universidades e os intelectuais. “A USP sempre foi o templo da vigarice intelectual”, ele escreve. Marilena Chauí e Artur Gianotti são “impostores”. Em contrapartida, é motivo de chacota nas universidades, onde ninguém o leva a sério.

Henrique Sobreira, professor da UERJ, fez a maior gozação: “Depois de décadas ‘dormindo na caixa’, Olavo de Carvalho, finalmente, ‘saiu do armário’. A comunidade GLS, que suportou anos a fio o seu destilado preconceito, lhe dá uma solene ‘beijoca’ de boas vindas ao Clube cor-de-rosa”. Ele recomendou que Olavo lesse vários textos do filósofo alemão Theodor Adorno, nos quais analisa o conceito de “educação para a dureza”, próprio do facismo. Gilberto Moraes, outro professor da UERJ, acredita que “Olavo nunca esteve diante de uma arma, passível de tomar um tiro de um bandido”.

O que Carvalho não entende é que a vitória do pensamento macho-taxista-carvalhista é a morte da sociedade. Não é a escola que deve ficar “macha”, mas a sociedade que deve viver os valores humanistas. Isso é possível, conforme Nelson Mandela, porque “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Mas para isso é necessário uma “escola-boiola”. Vai ver o negão falou isso porque é ‘boiola’, pensará Carvalho.

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Revendo Textos - Olavo de Carvalho x Renato Kress

Fevereiro 25, 2008 · Não Há Comentários

REVENDO TEXTOS

TEXTO ORIGINAL
Nossa mídia e seu guru

Olavo de Carvalho

O mais lindo espetáculo dos últimos tempos não foi a posse de Lula, escoltado por Fidel Castro, Hugo Chávez e uma penca de veteranos do terrorismo, numa praça adornada de milhares de bandeiras vermelhas e nenhuma do Brasil. O mais lindo espetáculo dos últimos tempos é a tranquilidade com que, diante disso, a mídia nacional assegura que não há mais comunistas em ação no mundo e que o país, no novo governo, tem o futuro assegurado de uma genuína democracia.

Nunca uma mentira tão óbvia foi sustentada com tão acachapante unanimidade, num insulto coletivo à inteligência popular, que, ao não se sentir ofendida por isso, mostra não ter mesmo muito respeito por si própria.

Não encontro precedentes históricos para tão estranho fenômeno, mas encontro paralelos em outros que, ao mesmo tempo, sucedem na mesma mídia. Querem ver um? A onda de indignação geral contra Chávez é mil vezes maior e as acusações que pesam sobre ele mil vezes mais graves do que tudo quanto, no Brasil, bastou para dar razão de sobra à derrubada de Collor. Não obstante esta é celebrada até hoje como uma apoteose da democracia, enquanto o movimento dos venezuelanos é pejorativamente rotulado de “tentativa de golpe”.

A duplicidade de critérios é tão patente, tão descarada que ela basta para mostrar que o jornalismo nacional está morrendo, substituído pela propaganda pura e simples. Muitos jornalistas negarão isso, fazendo-se de escandalizados, mas suas caretas de dignidade afetada não me convencerão. Pois eles próprios não escondem seu orgulho de ter abandonado as antigas regras de objetividade e isenção para adotar uma ética de dirigismo militante. Não querem mais ser meros portadores de notícias. Querem ser “agentes de transformação social”. Um agente de transformação não se contenta em dar informações: manipula-as para produzir um efeito calculado. Os jornalistas brasileiros estão de tal modo adestrados para isso que já o fazem até sem perceber.

Como chegaram a tanto? Uma pista reside na influência exercida sobre eles, como sobre a totalidade das classes falantes, da leitura de Antonio Gramsci, hoje a obrigação central e quase única de quem passe por estudos ditos “superiores” neste país. Para que haveriam de embeber-se tanto das idéias de Gramsci, se fosse para se absterem de levá-las à prática? Mas essas idéias têm uma propriedade notável: quanto mais um homem se intoxica delas, menos percebe o que têm de imoral e perverso.

Visto sem as lentes da devoção boboca, o gramcismo não passa de uma sistematização de intrujices. A hegemonia, segundo ele, deve ser conquistada pelos partidos de esquerda mediante “ocupação de espaços” na mídia, na educação etc. Ora, o que é “ocupação de espaços” senão mútua proteção mafiosa entre militantes, recusando emprego aos adversários e institucionalizando a discriminação ideológica como princípio de seleção profissional? Trinta anos dessa prática e já não resta nas redações nenhum anticomunista. Dividido o espaço entre esquerdistas, simpatizantes e indiferentes, ninguém reclama e todos sentem viver na mais confortável democracia. A consciência moral dos jornalistas de hoje é pura inocência perversa.
Mas Gramsci não era um intrujão só na estratégia política. Manipulador, não hesitava em contar à filha pequena velhos contos de fadas esvaziados de seu simbolismo espiritual e adulterados em grosseira propaganda comunista. Sua própria imagem histórica é uma farsa. Beatificado como encarnação do intelectual proletário, só trabalhou em fábrica por tempo brevíssimo.
Chamar Gramsci de maquiavélico não é força de expressão. Filho de um corrupto, ele era neto espiritual do megacorruptor florentino. Orgulhava-se de ser discípulo de Maquiavel e descrevia o “Partido” como o “Novo Príncipe”, encarnação coletiva do astuto golpista palaciano que conquistava o poder pisando nos cadáveres dos que o tinham ajudado a subir. Quando o Partido está fraco para o assalto direto ao poder, dizia Gramsci, deve formar um amplo “pacto social” baseado no “consenso”, mas conservando para si a hegemonia, o primado das idéias e valores que soldam a aliança. Os aliados, acreditando agir no seu próprio interesse, serão levados a amoldar seu pensamento às categorias admitidas pelo Partido, que, parasitando suas energias, livrar-se-á deles no momento devido.

Gramsci não é maquiavélico só no sentido vulgar d” “O Príncipe”, mas também naquele, mais sutil e maldoso, dos “Discorsi”. Nesta obra pouco lida, Maquiavel revela seu intuito de colocar o Estado em lugar do próprio Deus. Gramsci apenas acrescenta que, para isso, é preciso antes um Partido-deus. É aí que sua malícia chega a requintes quase demoníacos. Ele considerava o cristianismo o principal inimigo do socialismo. Sonhava com um mundo em que toda transcendência fosse abolida em favor de uma “terrestrialização absoluta”, na qual a simples idéia de Deus e de eternidade se tornasse inacessível.

Mas não queria destruir a igreja como instituição, e sim usá-la como fachada. Para isso, propunha que os comunistas se infiltrassem nela, substituindo a antiga fé por idéias marxistas enfeitadas de linguagem teológica. Assim, a pregação comunista chegaria às massas sob outro nome, envolta numa aura de santidade.

A maior fraude religiosa de todos os tempos está hoje coroada de sucesso, o que não torna menos deformada e monstruosa a mentalidade do seu inventor. Nem menos desprezível a daqueles que o admiram por isso.

Olavo de Carvalho é jornalista e ensaísta, autor de “O Jardim das Aflições” (É Realizações, 2001), entre outros livros.

Fonte: Folha de S. Paulo

TRADUÇÃO
Nossa mídia e seu guru Olavo de Carvalho
Renato Kress

O mais lindo espetáculo dos últimos tempos não foi a posse de Lula, escoltado por Fudel Castro, Hugo Chávez, Percival Madruga e uma penca de veteranos do sadomasô-retrô, numa praça adornada de milhares de bandeiras vermelhas e nenhuma do Brasil. O mais lindo espetáculo dos últimos tempos é a tranqüilidade com que, diante disso, a mídia nacional assegura aos comunistas em ação no mundo que o país, no velho desgoverno, tinha o futuro assegurado de uma genuína democracia.

Nunca uma mentira tão óbvia foi sustentada com tão acachapante unanimidade, num surto coletivo à ininteligência popular, que, ao não se sentir confundida por isso, mostra não ter mesmo muito respeito por mim próprio.

Não encontro ascendentes astrológicos para tão estranho fenômeno, mas encontro chás de cogumelos que, ao mesmo tempo, sucedem na mesma mídia. Querem ver um? Adicione coentro à onda de indigestão geral contra Chávez, Sr. Madruga e outros representantes do povo e borbulharão mil vezes maiores as acusações que pesam (tal qual Sr. Barriga, o FMI da história) sobre ele mil vezes mais graves do que tudo quanto, no Brasil, bastou para dar razão de sobra à derrubada do meu querido e Jet-Skilico Fernando, o Lloco. Não obstante esta é celebrada até hoje como uma apoteose da malfadada democracia, enquanto o movimento manipulado, censurado e afeminado dos venezuelanos é pejorativamente rotulado de “tentativa de golpe”.

A duplicidade de mistérios é tão potente, viril, máscula… enfim, tão descarada que ela basta para mostrar que o tribalismo nacional está morrendo, substituído pela marihuana pura e simples. Muitos sensacionalistas negarão isso, fazendo-se de escandalizados, mas suas caretas de dignidade afeminada não me convencerão. Pois eles próprios escondem seu bagulho e parecem ter abanado as antigas “negas” e festividades do feriadão na Lapa para dar uma “estica” de dirigismo de trios elétricos mirabolantes. Não querem mais ser mesmeros importunadores de notícias. Querem ser “agentes de transformação social”, como o quadro do programa da Xuxa. Um agente de transformação, como todos que como eu crêem em duendes, não se contenta em dar informações: quer também dar-se por completo, entregar-se à causa, liberar a tarraqueta, manipula-la para produzir um efeito calculado. Os malabaristas porto-riquenhos estão de tal modo adestrados para isso que já o fazem até sem receber.

Como cheiraram tanto? Uma pista reside na confluência de Marley exercida sobre eles, como sobre a totalidade das classes falantes, incluindo também as murmurantes e as assobiantes, da leitura de Antonio Gramsci em braile, hoje impressa na nazalização central e quase única de quem passe por estudos ditos “superiores”, “astrais” ou “místicos” neste país. Para que haveriam de embebedar-se tanto das panatenéias de Gramsci, se fosse para se absterem de levá-las à total apática? Mas essas colméias têm uma propriedade soluçável: quanto mais um homem se intoxica delas, menos percebe o que têm de imoral e perverso. (Pelo que me lembro)

Visto sem as lentes da devolução boboca, feia, malvada, bruxa e chata, o gramcismo, como o flamenguismo, não passa de um comichão de intrujices. A harmonia dos chakras, segundo ele, deve ser conquistada pelos partidos de esquerda mediante “ocupação de espaços” na mídia, na inducação etc. Ora, o que é “ocupação de espaços” senão o MST? Uma mútua pegação perniciosa entre militantes, recusando emprego aos perdulários e institucionalizando a indiscriminação ideológica como princípio de seleção sensacional? Trinta anos dessa lástima e já não presta das redações nenhum antitabagista. Dividindo o espaço entre as moçoilas esquerdistas, simpatizantes e indiferentes, ninguém reclama e todos sentem viver na mais detestável democracia. A inconsciência moral dos jornalistas de hoje é pura anuência perversa com Pablo Coelho.

Mas Gramsci não era um manjericão só na sacrilégia política. Manipulador, não hesitava em contar à filha pequena velhos contos de fadas, fados e fodinhas esvaziados de seu simbolismo fálico-sexual e adulterados em grotesca propaganda comunista. Sua própria mensagem histórica é uma fossa. Beatificado como escarnação do intelectual otário, só trabalhou em fábrica por tempo levíssimo.

Chamar Gramsci de maquiavélico não é forçar a imbecilização. Filho de um abrupto, ele era neto espiritual, transcedental, sucursal, vertical, vetorial e umbilical do megainvestidor florentino Georgios Sorone. Orgulhava-se de ser exípulo de Maquiavel e descrevia o “Partido” como o “Novo Príncipe”, escarnação coletiva do matuto Xamã (chavista) palaciano que conquistava o poder pisando, e conjurando os cadáveres dos que o tinham ajudado a subir. Quando o Partido está fraco para o assalto direto ao poder, dizia Gramsci, deve formar um amplo “impacto social” baseado no “incenso”, mas conservando para si a Hegel-mania, o primado das idéias e valores monetários que, como a H.Stern e a Amsterdam Sauer, soldam as alianças. Os seqüelados, tal qual os laricados, acreditando agir no seu próprio desinteresse, serão levados a amoldar seu carregamento às alegorias admitidas pelo Partido, como por exemplo a ala dos “aviãozinhos”, que, parasitando suas energias, livrar-se-á deles no momento devido.

Gramsci não é maquiavélico só no sentido de comungar, rezar o terço, praticar seu confessionário ou dourar a pílula d” “O Príncipe”, mas também naquele, a nível de que seria mais inútil e maldoso, dos “Discorsi”. Nesta obra pouco lida e provavelmente nem sequer existente, Maquiavel revela seu intuito de colocar o Estado em lugar do próprio Zeus, abrindo sucursais pentecostais pelas encostas de montanhas e incomodando os Gnomos, entes e elementais da terra como bem sabe a Xuxa e seus amáveis, e reais, duendes. Gramsci apenas acrescenta que, para isso, é preciso antes um Partido-deus acima dos silfos, gnomos, ondinas e salamandras. É aí que sua malícia chega a requintes quase demoníacos revelando inclusive a tatuagem com os três dígitos “6″ na sua nádega esquerda, veja o detalhe, uma nádega de “esquerda”. Ele considerava o cristianismo o principal inimigo do socialismo, porque como se sabe, Jesus, quando reinou sobre o império romano, aboliu o costume judeu-comunista de se comer criancinhas. Sonhava com um mundo em que toda transcendência fosse abolida em favor de uma “terrestrialização absoluta”, na qual a simples idéia de Zeus e de eternidade se tornasse inacessível. (Ao escrever isso, senti um leve tremor sobre o meu cantinho da espiritualidade, que meu mestre de Feng-Shui, Sólokuyntendhi Esthamherrdda, montou no meu jardim das confusões para que me aflijam pela noite com seus cantos tântricos. Creio que Mhelecca, meu duende do intelecto, foi raptado por algum Troll comunista, Ptista e amiguinho do Chico Alencar, aquele agressivo baderneiro Chavista e Chapolinista.)

Mas não queria destruir a igreja como instituição, e sim usá-la como fachada. Para isso (que basta o Papa, aquele pedófilo amiguinho do Michael Jackson tentando ir contra o bispo Macedo, legítimo representante de Jeová no ilê), propunha que os comunistas se infiltrassem nela, com roupas de papie-marchê brancas, substituindo a antiga fé por idéias igualitaristas enfeitadas de brócolis, cevada, whisky e linguagem escatológica. Assim, a impregnação comunista chegaria às massas, peixes e aves sob outro nome, envolta numa aura de espinafre.

A maior fralda religiosa de todos os tempos está hoje coroada de excesso esverdeado e mole, o que não torna menos deformada e monstruosa a mentalidade do seu produtor, o tal do Papa. Nem menos desprezível a daqueles que o adquiram em miniaturas sobre rodas nas lojas do “Catolics R’us” por isso.

Olavo de Carvalho é jornalista e ensaísta de balé clássico com rumba, representante interino da seita secreta do santo Dai-me-no-banheiro , autor de “O Jardim das Aflições” com ajuda do seu guru espiritual Sólokhuyntendhi Esthamherrdda Pabx: 2555-70-1-69 (É Realizações, 2001), entre outros desvarios.

Texto traduzido por Renato Kress


“Há muito a ser dito em favor do jornalismo atual. Ao nos fornecer as opiniões dos incultos, nos mantem em contato com a ignorância coletiva”. [Oscar Wilde; Gilbert, em "O Crítico Como Artista"(1891)]

Fonte: Consciência.Net

Esta parte :

Nunca uma mentira tão óbvia foi sustentada com tão acachapante unanimidade, num surto coletivo à ininteligência popular, que, ao não se sentir confundida por isso, mostra não ter mesmo muito respeito por mim próprio.”

me fez lembrar o post d’O Hermenauta sobre as posições desta garota

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